dia 175/365.



eu sabia que ele estava aprontando alguma coisa.

dá pra perceber quando o john está com algum plano em andamento. ele não é exatamente o tipo de pessoa que consegue esconder completamente. tem um jeito diferente de agir, uma energia que não é a de sempre, uma distração calculada que parece natural mas não é. e eu tinha visto ele pesquisando carro, vendo anúncio, conversando com o pai. achei que ele ia ajudar o pai a trocar o carro. faz sentido, é o tipo de coisa que ele faria.

não era o carro do pai.

ele falou que ia estar na empresa, mas num setor diferente do meu. ok, normal. e então, no horário de ir embora, ele apareceu e falou pra gente ir. simples assim. sem cerimônia, sem aviso especial, sem nada que me fizesse suspeitar do que estava prestes a acontecer.

quando eu saí, tinha um carro parado lá fora.

ele pegou uma chave, balançou na minha frente com aquela cara de quem está tentando não sorrir e não está conseguindo muito bem, e falou:

tó. é seu. pode entrar e ir pra casa.

eu fiquei mudo.

não é uma figura de linguagem. eu literalmente fiquei mudo. parado, olhando pro carro, olhando pra ele, olhando de volta pro carro. como assim? do nada? um carro? oi? meu cérebro tentou processar e simplesmente travou, como computador com aba demais aberta ao mesmo tempo.

entrei.

é um carro simples. não é novo. não é o carro dos sonhos de ninguém, não é aquele tipo de presente que aparece em vídeo viral com laço vermelho em cima. é um carro de verdade, usado, com história, com quilômetros, com a vida que já teve antes de chegar até mim.

e foi ele que me deu.

então isso é tudo pra mim. absolutamente tudo.

quando eu olhei pro lado, minha mãe já estava sentada no banco do carona. toda feliz. ela não sabia de nada, ficou tão chocada quanto eu, e levou exatamente três segundos pra processar a informação e entrar no carro. três segundos. depois disso, estava instalada, pronta, sem mais perguntas.

eu ri. de verdade, daquele riso que vem quando você não sabe mais o que fazer com o que está sentindo.

e fui pra casa. no meu carro. que o john me deu.

tem coisas que a gente não sabe que precisa até receber. não era o carro em si, embora o carro seja muito bem-vindo e eu esteja muito feliz com ele. é o gesto. é alguém que te vê, que percebe o que falta, que planeja em silêncio por semanas sem falar nada, que envolve o pai pra assinar, que guarda o segredo até o momento certo, e então aparece com uma chave na mão como se fosse a coisa mais simples do mundo.

é ser visto assim. é ser cuidado assim.

e eu, que passo os dias cuidando de tanta gente, que faço mágica no trabalho, que cozinho jantar, que organiza, que resolve, que sustenta o que precisa ser sustentado, recebi hoje um cuidado que não pedi e não esperava.

e foi exatamente o que eu precisava.


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