dia 176/365.



o carro foi pra revisão logo no dia seguinte a chegar nas minhas mãos.

esperado. precisava. não é novidade que um carro que chega com história precise de uma olhada geral antes de virar rotina. e tem algo quase poético nisso, nessa ideia de que às vezes você recebe alguma coisa boa e o primeiro passo é cuidar dela antes de usar de verdade.

mas não era só o carro que me fazia pensar nisso hoje.

teve uma movimentação aqui, que eu não vou detalhar, que me fez refletir sobre uma coisa que eu acho que poucas pessoas têm coragem de admitir que fazem. dar um passo atrás pra dar dois pra frente.

a gente foi criado pra avançar. sempre avançar. parar é fraqueza, recuar é derrota, qualquer movimento que não seja pra frente parece, na narrativa que a sociedade vende, um fracasso. mas eu discordo. e cada vez mais eu discordo.

porque tem situações em que o movimento mais inteligente, mais corajoso e mais estratégico que você pode fazer é exatamente esse. recuar com intenção. ceder terreno temporariamente porque você enxerga o objetivo maior, porque você sabe que esse passo atrás é parte do caminho, não o fim dele. e fazer isso com humildade, sem drama, sem precisar que ninguém entenda agora o que vai fazer sentido depois.

isso exige uma clareza sobre onde você está indo que muita gente não tem. e exige uma humildade sobre onde você está agora que ainda menos gente consegue sustentar.

eu admiro profundamente quem consegue fazer isso. e hoje eu vi de perto.

de tarde almoçamos com o meu irmão mais velho e um amigo, eu, minha mãe e o john. um desses almoços que não precisam de motivo especial pra existir. que existem porque a gente se gosta e isso é suficiente. conversa boa, comida boa, aquela leveza de quem está com gente certa.

mas o destaque do dia, e eu preciso registrar isso porque seria um crime não registrar, foi de manhã.

minha mãe e o john brigaram. e quando eu digo brigaram, eu digo de um jeito que fez a estrutura do ambiente tremer um pouco. foi aquele tipo de confronto que só acontece entre pessoas que se importam de verdade uma com a outra, e justamente por isso vai fundo. não vou entrar em detalhe do que foi dito, não é meu lugar. mas posso dizer que quem estava por perto ficou em estado de choque.

eu não fiquei.

eu, honestamente, fiquei rindo. não de descaso, não de crueldade. de alívio, talvez, e de um certo reconhecimento de quem já esteve no centro desse tipo de situação e sabe que tem um processo aí que precisa acontecer.

e aconteceu. depois da tempestade, os dois se acertaram. melhor do que antes, inclusive. como às vezes acontece quando a conversa difícil finalmente sai, quando o que estava represado encontra a saída e o ar volta a circular.

a quinta fluiu bem depois disso. minha mãe foi pra são paulo, o trabalho andou, as coisas se ajeitaram do jeito que se ajeitam quando a manhã difícil já passou e o resto do dia decide colaborar.

passo atrás de manhã. dois pra frente de tarde.

às vezes é exatamente assim que funciona. mesmo que seja no grito.


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