
aniversário do meu irmão do meio. almoçamos no clube, no restaurante que é dele, dentro de um clube que foi do meu avô.
essa frase, quando eu paro pra olhar, tem muita coisa dentro dela. meu avô fundou o clube. hoje a gente não tem mais nada a ver com a administração, só os títulos de sócio que ficaram. mas minha mãe, claro, continua dando palpites na diretoria com a convicção de quem ainda manda. ela ama um problema pra resolver. uma situação pra entrar, uma causa pra abraçar, uma sarna pra se coçar, como eu carinhosamente defino.
e olha, eu tenho provas de que ela tem capacidade pra isso. em algum momento da vida ela decidiu, como projeto pessoal, salvar uma escola de samba que estava à beira da falência. não era dela, não tinha nenhuma obrigação. ela simplesmente viu o problema e achou que podia resolver.
deu certo? muito.
então quando ela opina na diretoria do clube, eu ouço com um respeito misturado com aquela resignação carinhosa de quem sabe que ela provavelmente tem razão.
no aniversário tinham algumas amigas de faculdade do meu irmão. meninas jovens, cheias daquela energia específica de quem ainda não sabe bem o que quer mas tem certeza absoluta de tudo. daquelas que a vida ainda não passou a borracha. tudo muito fresco, muito novo, muito cheio de possibilidade não testada.
eu e o john nos olhamos. ele tem trinta anos. eu tenho quarenta. e os dois chegamos exatamente na mesma conclusão ao mesmo tempo, sem precisar dizer nada em voz alta. essa cumplicidade silenciosa de casal que pensa igual sem combinar.
olhei pra aquilo tudo com aquela mistura estranha de nostalgia e alívio que a vida vai ensinando com o tempo. nostalgia de ter sido assim. alívio de não ser mais.
foi um almoço bom. meu irmão feliz, minha mãe no elemento dela, eu e o john observando o mundo passar com a sabedoria silenciosa de quem já foi jovem e sobreviveu.
e olha, teve um detalhe que eu não posso deixar passar. dois dias almoçando fora. dois. dias. seguidos. sem panela, sem fogão, sem aquela negociação interna de o que eu faço hoje. só sentar, pedir e comer. eu me acostumaria com essa vida muito facilmente. na verdade, eu acho que nasci pra ela. alguém precisava falar.
de tarde trabalhei até mais tarde. e quando terminei, fui buscar o carro na oficina. me disseram que estava 100%. eu ouvi, agradeci, entrei no carro e imediatamente soube que não era bem assim. eu sou chato pra essas coisas. barulho de motor, vibração fora do lugar, qualquer detalhe que não está como deveria estar, eu ouço. eu sinto. não dá pra me convencer do contrário.
saí da oficina fazendo uma lista e mandando áudio pro dono. e eu juro que não estava brigando, só pontuando algumas coisas…
mas saí feliz do mesmo jeito. porque 98, mesmo que eu seja o único que saiba que é 98 e não 100, ainda é muito mais do que eu tinha antes. e às vezes é exatamente isso que basta.
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