dia 178/365.



almoçamos no clube. terceiro dia seguido almoçando fora, eu estava começando a achar que tinha nascido certo afinal.

depois fomos na casa dos pais do john buscar umas cadeiras que ele tinha comprado e que tinham chegado lá. coisa rápida, prática, sem grande evento.

mas aconteceu uma coisa que ficou comigo o dia inteiro.

a mãe dele estava limpando a casa quando chegamos. aquela cena doméstica comum, de um sábado de tarde, que não tem nada de especial quando você descreve. e eu entrei, cumprimentei, fui ajudar com as cadeiras, e em algum momento percebi uma coisa que não tinha percebido antes.

eu me sentia em casa.

não em casa do tipo lar, do tipo meu espaço, meu cheiro, minhas coisas. mas em casa do tipo íntimo. do tipo lugar que me conhece e que eu conheço. do tipo que você entra e não precisa explicar quem você é.

e eu fiquei pensando nisso enquanto carregava cadeira, enquanto conversava, enquanto a tarde ia passando com aquela leveza de coisa simples. quando foi que isso aconteceu? quando foi que a casa onde o john cresceu virou também, de alguma forma, um lugar meu? não consigo apontar o momento. não teve um dia específico em que eu decidi que eles eram família. foi acontecendo. silenciosamente, sem cerimônia, sem ninguém assinar nada.

e acho que é exatamente assim que as famílias de verdade se formam. não nas datas comemorativas, não nas fotos posadas, não nos momentos grandes que todo mundo vai lembrar. mas nesses sábados comuns em que a mãe está limpando a casa e você entra e simplesmente… pertence.

você também sente isso às vezes? aquele momento em que você percebe que um lugar, uma pessoa, uma família que não é a sua por sangue, já é sua de algum outro jeito que não tem nome mas que é completamente real?

eu acho que a gente subestima muito essas construções silenciosas. fica esperando o sentimento grande, o momento épico, a percepção dramática. e enquanto espera, a vida vai construindo vínculos nos detalhes, nas cadeiras carregadas, nas tardes de sábado, nas mães limpando casa.

vim pra casa com enxaqueca. clássico. a alê tinha chegado pra passar o final de semana e de noite a gente cozinhou junto. ela trouxe uma massa caseira recheada de muçarela de búfala, coisa linda, e eu fiz um molho de manteiga de sálvia. comprei filé mignon num mercado diferente do de sempre, esse com açougue de verdade, açougueiro simpático, fila decente.

e eu e a alê fizemos exatamente a mesma coisa que no dia da crosta de coco que não grudou, só que dessa vez com mais confiança. pegamos a carne na geladeira e levamos pro açougueiro cortar. sem drama, sem fila homérica, sem açougueiro cortando com raiva. ela foi lá toda paz e eu comentei, aliviado, que pelo menos esses eram simpáticos e iam cortar direito.

quem me viu da primeira vez, tremendo enquanto ela enfrentava a fila, não reconheceria.

crescimento, eu acho. pequeno, silencioso, do tipo que só aparece quando você olha pra trás e percebe que o que antes parecia impossível agora é só parte do dia. (mas se o mercado estivesse cheio…)

como carregar cadeira na casa dos sogros num sábado de tarde e se sentir, completamente e sem esforço, em casa.


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