
domingo à noite. e eu não fui dormir.
não foi série, não foi celular sem rumo, não foi aquela coisa de perder a noção do tempo sem perceber. foi consciente. eu sabia que estava acordado, sabia que devia dormir, sabia que segunda-feira estava chegando, e fiquei acordado do mesmo jeito.
fui pensar sobre isso.
tem um comportamento que tem até nome, que eu descobri esses dias. revenge bedtime procrastination. procrastinação por vingança do sono. surgiu na china, de trabalhadores exaustos que ficavam acordados até tarde como única forma de sentir que o tempo era deles. o dia inteiro pertencia às obrigações, ao chefe, às demandas, a todo mundo menos a eles. e a noite, mesmo que às custas do sono, era o único espaço que sobrava.
eu entendi na hora. mas o meu caso é levemente diferente.
não é vingança contra o dia que passou. é resistência ao dia que vai chegar.
tem uma diferença sutil aí que eu fiquei pensando por um bom tempo. quem fica acordado por vingança está processando o que foi. quem fica acordado por resistência está tentando adiar o que vem. são dois movimentos distintos. um olha pra trás, o outro olha pra frente e finge que se fechar os olhos o amanhã não existe.
e domingo à noite é quando isso me pega mais. porque segunda-feira tem um peso específico que os outros dias não têm. não é só mais um dia útil. é o reinício. é o momento em que a semana inteira se apresenta de uma vez, com tudo que ela vai exigir, com tudo que está pendente, com tudo que ainda não foi resolvido e que estava esperando educadamente desde sexta.
e enquanto eu estou acordado, isso não começa. é uma lógica completamente irracional, eu sei. segunda-feira vai acontecer de qualquer jeito. o relógio não para porque eu não estou dormindo. os problemas não somem porque eu estou no celular às duas da manhã. mas o cérebro cansado não faz essa distinção com a clareza que deveria. ele sente a ausência de obrigação e interpreta como liberdade. como se o domingo ainda não tivesse acabado enquanto eu estivesse acordado.
e eu fico. rolando o feed, jogando, pensando em coisas aleatórias, fazendo planos que não vou executar, reorganizando mentalmente uma vida que vai continuar igual quando o sol nascer. e o tempo passa. e a segunda-feira chega do mesmo jeito. só que agora com uma pessoa mais cansada dentro dela.
o preço é sempre pago na manhã seguinte. sempre. e eu sei disso. sei enquanto fico acordado, sei enquanto decido não dormir ainda, sei que segunda vai custar mais caro por causa disso. e fico do mesmo jeito.
porque tem uma coisa que eu aprendi sobre esse comportamento que vai além da lógica do sono. ele não é falta de disciplina, não é irresponsabilidade, não é simplesmente burrice. ele é sintoma. é o sinal de que alguma coisa no ritmo dos dias está exigindo mais do que está sendo reposto. que o descanso real não está acontecendo onde devia acontecer, e aí a noite vira o lugar onde a gente tenta compensar, mesmo que de forma ineficiente, mesmo que às custas do dia seguinte.
a raiz do problema raramente é noturna. é diurna.
e eu fico pensando se não é isso. se o que me faz resistir ao sono de domingo não é preguiça nem falta de rotina, mas uma semana que exige demais e devolve de menos. uma rotina que não tem pausas reais, que não tem espaço genuíno só meu, que vai consumindo sem repor. e a noite de domingo, tarde, silenciosa, sem ninguém precisando de mim, vira o único momento em que eu existo pra mim mesmo.
é pouco. é ineficiente. cobra um preço alto no dia seguinte.
mas é o que tem.
você também faz isso? fica acordado quando devia dormir, não por estar animado, mas por estar tentando adiar o inevitável? resistindo ao amanhã como se a noite pudesse durar mais um pouco, só um pouco, antes de tudo começar de novo?
se sim, você não está sozinho. e provavelmente também sabe exatamente o que está fazendo enquanto faz.
e faz do mesmo jeito.
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