carta de domingo · 02 de agosto
oi de novo.
depois dessas duas primeiras cartas, chegaram respostas que eu não esperava receber, gente contando do próprio aniversário, da própria régua, de marcas que carrega sem nunca ter escolhido. eu li todas, respondi o que consegui, e saí com a certeza de que esse espaço vai ser exatamente o que eu queria: conversa, não vitrine. o texto de hoje, aliás, nasceu de um hábito meio vergonhoso que eu desconfio que você também tem: pegar o celular pra ver as horas e sair vinte minutos depois sem ter visto as horas.
comparação de feed.
abro o celular sem nem perceber que abri, é quase automático, o polegar já sabe o caminho antes de eu decidir conscientemente que quero ver alguma coisa. e de repente já estou no meio de vidas alheias organizadas em quadrados perfeitos, uma sequência infinita de gente que parece ter achado o caminho. às vezes eu pego o celular pra ver as horas e, quando percebo, faz vinte minutos que estou rolando o feed e eu ainda não vi as horas. o aparelho foi desenhado pra isso, eu sei, tem gente muito bem paga do outro lado calculando exatamente como me manter rolando, mas saber disso não me torna imune, só me torna um viciado informado.
todo mundo parece estar exatamente onde deveria estar, com a casa arrumada, o casamento em paz, o corpo em forma, a viagem no lugar certo do mundo, na luz certa do fim de tarde. eu sei, racionalmente, que aquilo é montagem, que ninguém posta a fatura atrasada, a briga da noite anterior, o silêncio pesado no carro voltando de algum lugar. eu sei disso com a cabeça. mas saber não impede o aperto besta no peito, essa vozinha chata perguntando por que a minha vida não parece tão editada quanto a dos outros, por que os meus quadrados não têm a mesma luz. porque a comparação não acontece na parte racional de mim, ela acontece num andar mais fundo, mais antigo, um andar que não lê legenda nem contexto, só registra: fulano tem, você não tem. e esse andar não aceita argumento. eu posso explicar pra ele que aquela viagem foi parcelada em doze vezes e que o casal sorridente talvez tenha brigado no aeroporto, e ele responde: tá, mas a foto ficou linda e a sua vida não rende foto assim.
e a matemática do feed é desleal por natureza, essa conta eu fiz tarde demais. eu comparo o meu bastidor inteiro, com cansaço, dúvida e roupa de ficar em casa, contra o melhor recorte de centenas de pessoas. é claro que eu perco. qualquer um perde. é um campeonato em que eu jogo sozinho contra a seleção dos melhores momentos do mundo inteiro, e ainda me culpo pela derrota, como se fosse falta de esforço meu e não vício de origem da própria disputa.
e o pior é que eu mesmo edito a minha vida antes de postar, escolho o ângulo, escolho a legenda, escolho o momento certo, alimentando exatamente o mesmo jogo que me machuca quando é a vida dos outros que aparece na tela. sou parte do problema que eu reclamo, e reconhecer isso não resolve nada de imediato, mas pelo menos me impede de julgar os outros com a régua que eu não aplico a mim mesmo. porque muito provavelmente existe alguém, agora, olhando um quadrado meu e sentindo o mesmo aperto besta, achando que a minha vida é a resolvida, e se essa pessoa soubesse de que dia real saiu aquela foto, ia rir do mal-entendido. estamos todos nos comparando com montagens uns dos outros, uma sala de espelhos em que ninguém está vendo ninguém de verdade. estou tentando, aos poucos, olhar menos pro feed dos outros e mais pro que realmente está acontecendo dentro de casa, mesmo sem luz boa, mesmo sem ângulo favorável. porque dentro de casa, pelo menos, o que eu vejo é inteiro. tem bastidor, tem defeito, tem dia ruim, mas é meu, acontece em tempo real e não precisa de legenda. e nenhum quadrado alheio, por mais bonito que seja, mora aqui.
me conta uma coisa, se quiser: qual foi a última vez que o feed te venceu? responde aqui, eu leio tudo, e prometo não julgar, porque a minha resposta seria hoje de manhã.
e o aviso da semana: “duas da manhã”, meu livro de desabafos, chega em agosto, e a pré-venda vai abrir primeiro pra quem recebe essa carta. você vai ficar sabendo por aqui antes de qualquer rede.
rico
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