dia 209/365.

estava calor.
isso já muda tudo. quem me conhece sabe que temperatura ambiente é diretamente proporcional à minha disposição de existir. calor não é só clima, é condição emocional. acordei bem, fiquei um pouco mais na cama porque estava calor e porque eu podia, e o dia começou com aquela leveza de quem sabe que o termômetro está do seu lado.
o trabalho foi mais parado. minha principal funcionária havia saído, então o ritmo foi outro. um daqueles dias em que você faz o que precisa ser feito sem grandes dramas e vai em frente.
de noite veio jantar a veterinária dos meus cachorros com o marido. ela já é muito mais do que veterinária, é amiga da família há anos. mais de dez cachorros em casa, mais seis na empresa, é quase uma relação de parentesco nessa altura. você acumula esse nível de trauma compartilhado com alguém e inevitavelmente vira família.
enquanto ela vinha, aqui perto de casa, numa pequena área de mata, estava acontecendo um incêndio. as pessoas do bairro em pânico, telefone tocando, todo mundo preocupado, aquela movimentação de emergência que toma conta do ambiente.
ela passou pelo incêndio.
não percebeu.
o que ela percebeu, com uma clareza e uma atenção que eu só posso admirar, foi a placa de promoção do mercado que fica praticamente no mesmo terreno que estava pegando fogo. pudim. promoção. ela parou, comprou dois, e chegou na minha casa com a satisfação de quem fez uma boa ação.
todo mundo gosta de pudim. o enrico ama pudim. solução perfeita.
quando ela abriu a embalagem na minha cozinha, o silêncio foi instantâneo.
não era pudim.
era quindim.
e aqui eu preciso parar pra explicar que ela basicamente não sabia o que era quindim. não é julgamento, é fato. ela olhou pra aquela coisa amarela, densa, brilhante, claramente não sendo pudim de leite, e ficou me olhando com a expressão de quem foi enganado pela promoção e pelo universo ao mesmo tempo.
e então começou o julgamento.
dela mesma. em voz alta. com testemunhas.
ela jurava que estava escrito pudim. jurava de pé junto. e quando ninguém conseguia confirmar essa versão dos fatos, ela foi construindo teorias alternativas com uma criatividade que eu só posso admirar. alguém pegou o quindim e colocou de volta no lugar errado. a placa estava mal posicionada. o mercado organizou o estoque de forma confusa. o quindim estava embaixo de uma placa escrito pudim e qualquer pessoa razoável teria cometido o mesmo erro naquelas circunstâncias.
ela tentou de todas as formas se eximir da culpa de ter pego a coisa errada, com a convicção de quem está montando um caso pra tribunal.
mas ninguém estava realmente preocupado com isso. quindim é gostoso. estava ali. qual era o problema?
chegamos à conclusão de que ele é simplesmente um quindim que foi confundido com pudim. e está tudo bem. a gente respeita.
mais tarde, conversando com a alê pelo telefone, ela me fez uma pergunta.
o que te faz sentir vivo?
e eu buguei.
não foi uma pausa de quem está pensando. foi uma pausa de quem percebeu, naquele exato segundo, que não sabe a resposta. eu lembro da sensação. lembro do coração acelerando, daquela energia específica de quando alguma coisa te pega de verdade. mas a ação? o momento? o que exatamente provoca isso em mim?
não consigo lembrar.
e isso me assusta mais do que um quindim confundido com pudim.
porque um quindim identitário você resolve com filosofia e uma colher. a pergunta da alê não tem resolução tão simples. ela fica. ela continua aqui, enquanto eu escrevo, sem resposta formada, sem memória clara do que me faz o coração acelerar de verdade.
eu ainda não sei responder.
e talvez seja exatamente isso que eu precise descobrir.
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