dia 210/365.

quatro dias.
quatro dias sem ir ao banheiro. eu preciso registrar isso aqui porque faz parte do dia, faz parte do meu estado de espírito, e faz parte da explicação científica para o fato de eu estar levemente irritado com a existência em geral.
não é frescura. é fisiologia. quando o seu organismo decide entrar em greve sem avisar, sem negociar, sem apresentar uma pauta de reivindicações, ele afeta tudo. o humor, a paciência, a disposição pra lidar com qualquer coisa que não seja a resolução do problema em questão. eu estava funcionando, sim. mas estava funcionando no modo de quem carrega algo que não deveria estar carregando há quatro dias.
e ainda por cima, as contas voltaram a preocupar um pouco. depois de um bom tempo de respiro, aquela sensação familiar de aperto financeiro apareceu de novo, discreta mas presente, como aquele vizinho chato que some por um tempo e você até esquece que existe, e então ele volta a bater na sua porta.
então temos: intestino em greve. contas preocupando. humor comprometido.
seria um dia para descrever com adjetivos que eu prefiro não usar num texto que a minha mãe também lê.
mas.
a minha veia publicitária não recebeu o memorando de que o dia estava difícil. ela simplesmente continuou funcionando, alheia ao caos interno, com aquela energia específica de quem tem projeto pela frente e não aceita desculpa do próprio dono.
continuei com o site e o instagram da empresa do john. coisas tomando forma, estrutura se consolidando, aquele prazer específico de ver algo que você criou ganhar corpo e fazer sentido. e revisei os textos de mais um livro inteiro. do começo ao fim. com atenção, com cuidado, com a consciência de que cada palavra importa.
tudo isso num dia em que eu estava, tecnicamente, em greve solidária com o meu intestino.
e sabe o que foi mais interessante nessa revisão toda? ela não foi só trabalho. foi, de alguma forma, um lembrete.
porque quando você está no meio de problemas, de contas, de preocupações que não dependem de você resolver numa hora, tem uma tendência natural de ficar só naquilo. de ruminar. de dar voltas nos mesmos pensamentos, nas mesmas equações sem solução, de se martirizar por coisas que são alheias à sua vontade ou que simplesmente não são sua responsabilidade naquele momento.
revisar o livro tirou isso de mim. o dia passou mais rápido, mais leve. eu tinha um foco, uma tarefa concreta, algo que dependia só de mim e que avançava a cada página.
e mais do que o foco, me deu perspectiva. me lembrou que existem outros caminhos. outros sonhos. outros projetos. outra vida acontecendo em paralelo a essa que às vezes pesa demais. que eu sou mais do que os problemas do dia. que tem coisa sendo construída, coisa que importa, coisa que vai continuar existindo quando esse aperto passar.
e ele vai passar. sempre passa.
enquanto isso, o intestino segue em negociação.
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