dia 212/365.

enrico pierro



dia 212/365

nem tudo saiu conforme o planejado ontem. mas eu tinha plano b. e plano c. e isso, eu aprendi, é a diferença entre planejar de verdade e só torcer.

o carro.

quase vinte dias no mecânico. praticamente as férias de um clt, com direito a descanso, lazer e total ausência de responsabilidade. eu já nem lembro direito como é ter carro disponível. lembro que gostava, mas o gosto exato já está um pouco vago na memória.

me disseram que ficaria pronto hoje. eu acreditei. me animei. quase senti o cheiro do banco, quase ouvi o barulho do motor, quase estava lá.

descobri agora que só fica pronto na segunda.

eu me sinto enganado. não pelo mecânico especificamente. pelo universo em geral, que adora colocar a coisa a um palmo do nariz e então mover um palmo pra frente. é um jogo que ele pratica comigo com uma consistência que eu já deveria ter aprendido a respeitar.

cheguei em casa e toda a família do john estava na chácara.

toda. a. família.

o que seria normal se alguém tivesse combinado. mas ninguém havia combinado. ninguém havia avisado. e o mais curioso: eles também não sabiam que todos viriam. foi uma convergência espontânea, uma sincronicidade familiar, um fenômeno que não tem explicação lógica mas que aconteceu do mesmo jeito. de repente estava todo mundo ali, sem plano, sem aviso, como se a chácara tivesse mandado um convite que ninguém conscientemente recebeu.

família é assim às vezes. aparece.

sexta, então, foi sexta de verdade. o jantar de sempre, aquele ritual semanal na casa da minha mãe que já virou parte da estrutura da semana. e essa sexta veio com bônus: a eulina com o marido, e outro casal que apareceu no fim da noite. a eulina é uma das pessoas mais importantes do nosso círculo, é a dirigente do curso que eu e o john frequentamos, o motivo pelo qual a gente está no centro. é daquelas pessoas que a gente encontra na vida e que mudam alguma coisa por dentro, sutilmente, sem alarde.

e a noite foi de conversa boa, daquelas que começam num assunto e terminam em outro completamente diferente, e você nem percebe quando a virada aconteceu.

em algum momento a conversa foi parar num tema que eu já escrevi antes, que volta pra mim de tempos em tempos e que dessa vez chegou por um ângulo diferente.

ser mediano.

tem uma pressão enorme, especialmente hoje, pra ser o melhor. em tudo. no trabalho, nas relações, na saúde, nas redes sociais, na forma de criar filho, de fazer café, de existir. todo mundo precisa ser extraordinário. todo mundo precisa se destacar. mediano virou quase um insulto.

mas eu trouxe uma pergunta que me parece óbvia quando você para pra pensar, e que ao mesmo tempo ninguém faz.

se todo mundo for o melhor, quem fica no meio?

não tem espaço pra todo mundo ser o melhor. matematicamente não tem. o melhor existe em relação a algo, e esse algo precisa existir pra dar sentido à comparação. a maioria das pessoas vai ser mediana. em alguma coisa, em várias coisas, na maior parte da vida. e isso não é fracasso. é só estatística. é só a realidade de como as coisas funcionam quando você tem bilhões de pessoas tentando existir ao mesmo tempo.

e estar na média, quando você para de encarar como derrota e começa a encarar como normalidade, libera uma quantidade enorme de energia que você estava gastando tentando ser extraordinário em coisas que talvez não precisassem de tanta extraordinariedade.

você pode ser mediano no trabalho e extraordinário em como você cuida de quem ama. pode ser mediano na academia e extraordinário na forma como você escuta as pessoas. pode ser mediano em várias frentes e ainda assim ter uma vida que vale muito a pena ser vivida.

a conversa foi boa. a noite foi boa. a família do john foi embora sem muito mais combinação do que quando chegou, o que tem uma coerência poética que eu aprecio.

e o carro fica pronto na segunda.

ou assim dizem.


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