dia 213/365.

acordei relativamente cedo. o que, sendo sábado, já é uma conquista que eu registro sem ironia.
fomos cortar o cabelo, eu e o john. já estava na hora, confesso. tinha chegado naquele ponto em que a pessoa olha pra você e não fala nada, mas você sabe. o silêncio tem uma eloquência específica quando o cabelo passou do ponto.
depois fomos almoçar no clube. chegamos tarde, como de costume. fazer o quê. é um padrão que eu já aceitei como parte da minha identidade. pontualidade e eu temos uma relação complicada que preferimos não discutir em público.
o joão, irmão do john, veio pra casa dormir. a chácara foi ficando animada do jeito que fica quando tem gente circulando.
e então eu fui ao mercado.
parece simples. não foi. o mercado tem esse poder específico de sugar o tempo sem você perceber. você entra com uma lista de dez coisas e sai quarenta minutos depois sem entender muito bem o que aconteceu no meio. eu cheguei tarde. mais tarde do que deveria.
e minha mãe não estava muito bem.
e não jantou.
e isso ficou comigo.
não de um jeito dramático, não de um jeito que eu fique me martirizando horas a fio. mas ficou. porque existe uma diferença entre não fazer algo por descuido e não fazer algo por uma sequência de pequenos atrasos que foram se acumulando ao longo do dia sem que eu percebesse.
não foi negligência. foi uma correria que foi somando, um compromisso puxando o outro, um atraso gerando o próximo, até chegar no final do dia e perceber que o que eu queria ter feito não deu pra fazer.
e o jantar da minha mãe, pra quem acompanha esse diário, não é só jantar. é um ritual. é o jeito que eu cuido dela toda semana, silenciosamente, sem precisar dizer muito. é a minha forma de estar lá, de ocupar um espaço, de fazer alguma coisa concreta pelo dia dela.
quando não acontece, eu sinto a falta do gesto tanto quanto ela sente a falta da comida.
às vezes o dia vence. não porque você desistiu, mas porque ele foi sendo maior do que você percebeu que estava sendo. e você olha pra trás e vê a correria toda, entende cada escolha que fez, e mesmo assim o resultado final não foi o que queria.
nesses dias a gente aprende a ser um pouco mais gentil consigo mesmo. a reconhecer que um somatório de pequenas coisas não é a mesma coisa que uma grande falha.
e amanhã eu faço o jantar.
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