o peso de se sentir sozinho.

enrico pierro

carta de domingo · 30 de agosto

oi.

já se passaram duas semanas desde que o livro saiu, e as mensagens ainda estão chegando, um pouco mais devagar agora, mas ainda chegando, cada uma delas um lembrete de que escrever pra ninguém, no fim, é escrever pra muita gente ao mesmo tempo. hoje eu queria compartilhar um dos capítulos que mais gente mencionou nessas mensagens, sobre um tipo de solidão que não tem nada a ver com estar sozinho.

o peso de se sentir sozinho.

existe uma solidão que não tem nada a ver com estar desacompanhado. eu posso estar cercado de gente que amo, numa mesa cheia, risada por todo lado, taça de vinho passando de mão em mão, e ainda assim sentir esse vazio específico de quem acha que ninguém ali entenderia de verdade o que se passa por dentro, mesmo que todos, sinceramente, se importassem em tentar. e é uma sensação traiçoeira porque ela não estraga a noite por fora. eu continuo participando, contando causo, rindo na hora certa, e ninguém na mesa desconfia que uma parte de mim assiste a tudo de um lugar um passo atrás, como quem olha a própria festa por uma janela.

é uma solidão que mora no meio da multidão, e por isso ela é mais difícil de explicar, porque de fora parece que não faz sentido eu estar sozinho se estou tão acompanhado, cercado de amor, de John, dos cachorros, de amigos, de leitores que escrevem mensagens generosas toda semana. mas tem coisa que a gente carrega e não sabe dividir, ou tem medo de dividir, com receio de virar peso pros outros, ou já tentou dividir uma vez e não foi entendido, e a experiência ruim daquela vez ensina a nunca mais tentar. uma tentativa frustrada de desabafo vale por dez anos de silêncio. a gente conta uma coisa difícil, recebe de volta um conselho apressado, uma mudança de assunto, um pelo menos você tem saúde, e o recado que fica é: isso aqui ninguém segura junto comigo. então a gente fecha a porta, educadamente, e passa a responder tudo bem pra sempre.

mesa de jantar farta e iluminada com pessoas desfocadas ao fundo, uma cadeira vazia em foco suave em primeiro plano

e aí a gente aprende a guardar pra si e chama isso de força, veste essa palavra bonita em cima de uma ferida que na verdade só está sendo ignorada, quando na verdade é só cansaço de tentar ser compreendido, ou medo de descobrir que talvez não seja. e o disfarce funciona tão bem que vira identidade. eu virei o forte, o que resolve, o que os outros procuram quando precisam desabafar. e tem uma ironia cruel nisso: quanto melhor eu escuto, menos as pessoas imaginam que eu também precisaria ser escutado. o posto de forte não tem férias nem substituto, e o pior é que fui eu mesmo que me candidatei, currículo caprichado, sorriso de foto.

não tenho a solução pronta pra essa solidão, só a companhia de saber que ela visita muita gente que, de fora, também parece completamente acompanhada. desconfio, inclusive, que naquela mesma mesa cheia tem mais alguém assistindo à festa pela mesma janela que eu, cada um achando que é o único do lado de fora. e talvez essa seja a primeira ponte: perceber que ninguém está tão sozinho na solidão quanto parece estar. a segunda ponte, mais difícil, é abrir uma fresta de vez em quando, escolher uma pessoa, um momento, e arriscar uma frase inteira de verdade em vez do tudo bem de sempre. eu tenho tentado. erro a mão às vezes, escolho a hora errada, volto pra trás no meio da frase. mas nas poucas vezes em que a fresta abriu e alguém olhou pra dentro sem pressa, o peso não sumiu, e talvez nunca suma, mas mudou de lugar. deixou de ser um peso só meu carregado em segredo e virou um peso visto. e peso visto pesa diferente do peso escondido, mesmo que o tamanho continue exatamente o mesmo.

se esse texto te encontrou numa mesa cheia e sozinha ao mesmo tempo, responde esse e-mail. às vezes a segunda ponte começa exatamente assim, numa frase pra um estranho que também escreve de madrugada.

obrigado por ler até aqui, por essas cartas de domingo, semana após semana, e por deixar eu entrar na sua casa toda vez. ainda tem uma por vir.

rico


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