dia 215/365.

segunda-feira.
não adianta. segundas e eu temos uma relação que eu já desisti de tentar consertar. é uma incompatibilidade fundamental, daquelas que a terapia de casal não resolve. a gente coexiste, mas não se gosta.
dormi tarde. dormi mal. e ainda assim o despertador foi uma sugestão, não uma obrigação. saí atrasado com aquela energia de quem sabe que está atrasado mas ainda está processando se isso é um problema real ou só uma perspectiva.
era um problema real.
mas a semana precisava começar porque sexta eu e o john viajamos. não vou dar detalhes agora, ainda é cedo, mas a viagem existe e isso significa que eu tinha aproximadamente cinco dias pra organizar uma quantidade de coisas que eu normalmente deixaria pra resolver em dois.
então fui organizando. fui encaminhando. reservei um dos hotéis que vou precisar, claro que na última hora, claro que na fé, claro que com aquela mistura de confiança e improviso que é basicamente a minha metodologia de viagem desde sempre. funcionou até agora. vamos continuar testando.
tive uma reunião online de alinhamento pra um evento na segunda-feira que vem. um lançamento literário que querem que eu cubra. eu ouvi tudo, assenti, participei. mas saí da reunião sem a certeza de que isso vai de fato acontecer. se vão fechar o preço, se vão me contratar de verdade, se o evento sai do papel. aquela incerteza específica de quem foi bem numa reunião mas ainda não sabe se a reunião vai virar trabalho.
vamos ver. na fé, como tudo nessa semana.
e então, no final da tarde, meu carro ficou pronto.
vinte dias no mecânico. mais uma conta que eu prefiro não detalhar publicamente por razões de saúde mental coletiva.
e enquanto eu pagava, lembrei do que a veterinária me perguntou lá atrás, quando o carro quebrou pela primeira vez. ela olhou pra mim, com aquela seriedade de quem acabou de fazer uma pergunta importante, e perguntou quem tinha me dado aquele carro. pra saber se a pessoa me amava ou me odiava.
na época eu respondi sem hesitar: me ama. é o john.
hoje, olhando pra conta, estou começando a ter dúvidas.
não sobre o john. sobre o carro.
o john me ama. isso eu tenho certeza.
o carro, por outro lado, parece estar testando os limites dessa teoria.
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