dia 218/365.

enrico pierro



o evento literário. lembra? aquele lançamento que eu cobriria na segunda.

sumiram.

não confirmaram, não cancelaram, não responderam. simplesmente pararam de existir na minha caixa de mensagens com aquela elegância específica de quem decide que o silêncio é uma forma de comunicação. a essa altura do campeonato, com a viagem amanhã, eu já tinha declinado mentalmente há dias. se aparecessem agora eu agradeceria e passaria pra frente. algumas coisas se resolvem sozinhas quando você para de forçar.

a viagem, por outro lado, está dando certo. tudo certo. certo demais, inclusive, o que me deixa com aquela desconfiança específica de quem não está acostumado com as coisas fluindo sem obstáculo. consegui adiantar tudo que precisaria fazer amanhã. tudo encaminhado, tudo resolvido, tudo no lugar.

e eu fico procurando a câmera escondida.

não estou acostumado com isso. quando tudo dá certo demais, uma parte de mim fica circulando pelo ambiente procurando o que está errado e ainda não apareceu. é um reflexo pavloviano de quem treinou durante meses com a lady murphy abraçada no pescoço. o cérebro não confia no silêncio da sorte. ele fica esperando.

mas o dia não foi só preparação de viagem.

teve uma bomba. jogada nas mãos da minha mãe. daquelas notícias que você sabe que vão chegar, que ficam no horizonte há um tempo, e sobre as quais você cultiva aquela esperança levemente irracional de que uma intervenção divina vai simplesmente fazê-las desaparecer antes de chegarem. como se o universo, ocupado com outras coisas, esquecesse de entregar aquela notícia específica.

o universo não esquece.

chegou.

e eu precisei segurar o rojão. dar uma chacoalhada nela. moral, não física. aquele tipo de conversa em que você precisa ser a âncora enquanto a outra pessoa está sendo levada pela correnteza. não é fácil. especialmente quando você está na véspera de uma viagem e a cabeça já está em outro lugar.

mas é o que tem.

e eu vou viajar amanhã com aquela mistura de alívio de ter conseguido estabilizar a situação e de preocupação com o que acontece depois que eu embarcar. existe uma chance considerável de ela ficar surtando com os cachorros. os cachorros, coitados, não fizeram nada pra merecer isso.

a mochila da crocs está esperando o debut oficial. porque sim, eu a usei antes. desde terça. eu sei que disse que ia estrear na viagem mas a mochila estava em casa e eu estava em casa e a matemática foi inevitável. mas o debut oficial, esse, é a viagem. são coisas diferentes e eu me recuso a discutir isso.

mas a viagem está confirmada. e amanhã, finalmente, eu descubro se tudo que deu certo demais era real ou só a calmaria antes da próxima temporada da novela.

vamos ver.


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