dia 219/365.

finalmente chegou o dia da viagem.
eu dormi super mal. mas por alguma intervenção divina, eu pouco pensei na viagem durante a madrugada. o que não significa que eu não estivesse subconscientemente ansioso de um jeito que atrapalhasse o sono de formas que meu consciente preferiu não registrar. o subconsciente tem seus métodos e eu aprendi a não questionar.
fui ao trabalho de manhã. adiantei o que dava, deixei bem encaminhado o que não dava. e então fomos pro aeroporto.
eu fui dirigindo porque o john estava bem preso ao trabalho. pelo celular, porque todo o trabalho dele está preso ao celular. aliás, falando em john e celular, aquele aparelho é basicamente uma extensão do braço dele. ele acorda com o celular na mão e dorme com ele na mão. de madrugada, às vezes, o celular dele parece um abajur. não toca, mas acende. é uma fonte de luz noturna não solicitada e constante.
mas fomos cedo. chegamos com calma. e aqui eu preciso ser claro sobre uma coisa: chegar atrasado em aeroporto não é uma opção pra mim. eu já fico nervoso com a viagem em si. imagina chegar atrasado? eu provavelmente chegaria de samu e entraria no avião de maca.
como fiz o check-in pelo celular e não tínhamos mala pra despachar, foi tranquilo. fomos pro embarque com uma boa folga. e quando eu digo folga, você pode ler como: tempo suficiente pra ir ao banheiro cinco vezes fazer xixi de nervoso, e tempo suficiente pra comer alguma coisa em todos os lugares disponíveis. porque não é só uma pessoa ansiosa e nervosa. é um taurino ansioso e nervoso. e se eu já como em quantidades quase insalubres normalmente, imagina com o olho tremendo de nervoso?
sentado no embarque eu podia ver o avião lá. lindo. branquinho. esperando.
quando estava quase na hora do embarque, cadê o avião?
tinha sumido. igual ilusionista do fantástico. daqueles que fazem a estátua da liberdade desaparecer e você fica ali sem entender o que aconteceu com a realidade.
avisaram que mudou o portão de embarque.
pra quem não conhece o aeroporto de guarulhos, deixa eu explicar uma coisa. o meu portão era o último. em uma escala de um a duzentos e cinquenta, era o duzentos e setenta. o que basicamente significa que ficava a vinte e sete quilômetros do ponto de partida. aparentemente.
ok. mas você está empolgado, a mala é de rodinhas, você vai.
aí eles mudam pro portão dez. quinze minutos pra ir de um extremo ao outro. sem carrinho de golfe, sem cão de suporte emocional, sem uber, nada. fomos mesmo assim, porque não havia alternativa, e eu cheguei lá com o fôlego que restava depois de uma caminhada que deveria ter gerado pontos no plano de saúde.
o voo foi tranquilo. bom, depende do ângulo. chacoalhou um pouco, então não teve serviço de bordo. água e meio pacote de amendoim. mas chegamos. e eu considero isso lucro absoluto.
de lá fomos direto pra locadora de veículos. estava calor. eu estava feliz. preparado pra aquele clima desde o meu nascimento, como quem encontra seu habitat natural depois de anos no exílio.
a locadora pediu que fizéssemos um web check-in no app pra agilizar o processo.
chegando lá descobrimos que isso atrasa. curioso, né? é. mas atrasa, segundo eles. o carro que estava reservado não aparecia no sistema e era o único da categoria. ficamos umas duas horas esperando, mas ok. saímos de lá de carro. lindo, tecnológico. talvez tecnológico demais pra quem é da época do atari e ms-dos.
fui enganado pelo gps logo de cara.
ao invés de belo horizonte, fui parar em vespasiano. aparentemente no lado oposto de onde eu deveria estar. tranquilo. um desvio de só meia hora.
chegamos às vinte e uma horas no hotel quando deveríamos ter chegado às dezoito, no máximo.
mas deu tempo. deu tempo de levar o john no restaurante onde eu tirei a foto que, segundo ele, foi a foto que ele mais gostou do tinder quando me deu um like. sim, ele deu o like primeiro. não que isso importe. muito.
e de lembrar que a camila ainda gostava de mim e fala comigo. beijos, camila bicalho. saudades. se eu soubesse seu cpf de cor eu colocava aqui pra não deixar dúvidas.
e eu comi. eu comi como se a minha vida dependesse disso. eu comi tanto que, de volta ao hotel, com o john trabalhando na sala de estar, eu me sentei na cama pra jogar um pouco no celular e às vinte e três horas e quarenta minutos, sim, eu sei o horário exato porque isso foi tão inédito que eu recebi um e-mail do guinness book no dia seguinte, eu simplesmente apaguei.
não foi uma cochilada. o john me escutou roncar de outro cômodo.
foi lá cobrir o meu corpo e o resto de dignidade que havia sobrado depois dessa odisseia.
coitado.
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