o fogo e a lenha
carta de domingo · 6 de setembro
oi.
chegamos na reta final dessas cartas de domingo, e hoje eu trago o último capítulo de “duas da manhã”, o que fecha o livro. fiquei um tempo pensando em como encerrar esse arco, e acabei encontrando a resposta do jeito mais simples possível, numa noite fria, perto do fogo.
o fogo e a lenha.
tem uma coisa boa em ser friorento numa noite dessas, porque me dá desculpa pra ficar horas plantado na frente da lareira, sem culpa nenhuma, só eu e o fogo e o silêncio da chácara lá fora. hoje tá frio de verdade, daqueles frios que entram pela roupa e se instalam no osso, e eu, que sinto frio até em dia de sol fraco, cheguei perto da lareira antes mesmo de acender a última lenha, só pela promessa do calor que ainda ia vir.
e fiquei ali, olhando as chamas nascerem devagar, pensando em como o fogo é generoso no começo. ele pede pouco, uma faísca, um gravetinho seco, e devolve tanto. aquece a sala inteira, ilumina o rosto de quem senta perto, cria esse tipo de conforto que nenhum aquecedor elétrico imita direito, por mais moderno que seja. e eu, com os pés gelados esticados na direção da lenha, pensei que a vida funciona parecido. no começo ela pede pouco de nós, só disposição, só vontade de tentar, e devolve um calor que parece infinito, que parece que nunca vai acabar nem exigir nada em troca.
só que o fogo não sabe parar sozinho. ele não tem esse instinto de moderação, ele só sabe crescer enquanto tiver o que queimar, e cabe a quem está do lado de fora decidir até onde deixar. eu já vi lareira virar perigo por descuido de gente que achou que mais lenha era sempre melhor, que mais fogo era sempre mais calor, sem entender que existe um ponto exato em que o mesmo elemento que aquece a casa começa a ameaçar derrubá-la. e a vida faz isso comigo o tempo inteiro, nas coisas que eu mais gosto de fazer. o trabalho que me realiza também é capaz de me consumir se eu não prestar atenção em quando parar de alimentar. a paixão que me faz sentir vivo também é capaz de virar obsessão se eu deixar a lenha empilhar demais.
fico aqui olhando essas chamas se acomodarem, baixarem um pouco de intensidade, e penso que talvez o segredo não esteja em ter medo do fogo nem em evitá-lo, porque eu, friorento como sou, nunca ia conseguir viver longe dele. o segredo está em aprender a alimentar na medida certa, em saber reconhecer quando a lareira já está quente o suficiente e mais um tronco só vai ser exagero disfarçado de cuidado. é isso que eu ainda estou aprendendo, com o fogo e com tudo o mais que aquece a minha vida: a diferença entre manter aceso e deixar queimar.
se teve um capítulo dessas semanas que ficou grudado em você, me conta qual foi. quero saber.
esse foi o último capítulo de “duas da manhã”. se você chegou até aqui, obrigado por ler comigo essas madrugadas. o livro completo já está à venda.
rico
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