dia 220/365.

acordamos e fomos direto pro café da manhã.
se tem uma coisa que me deixa genuinamente feliz em viagem é café da manhã de hotel. é uma das poucas situações em que eu me sinto completamente alinhado com o universo. e em minas gerais, isso significa pão de queijo. muitos pães de queijo. eu comi com aquela dedicação de quem sabe que está no lugar certo, fazendo a coisa certa, no momento certo.
depois, estrada.
o john decidiu não dirigir. ele observou o trânsito mineiro e chegou à conclusão, rapidamente, de que minas tem uma relação com direção que ele preferiu não testar. sensato. fui eu.
o carro, que já mencionei ser tecnológico, tem um assistente de faixa. o que significa que ele consegue virar o volante sozinho, apitar, e se eu pressionar o botão certo, faz as curvas sem a minha ajuda.
incrível. mas eu não confio.
eu sou de uma época em que tecnologia avançada era ter controle remoto sem fio e achar que aquilo era o pico da civilização humana. um carro que dirige sozinho entra numa categoria de coisas que eu respeito mas observo de longe, como magia, ovni e gente que acorda bem-disposta na segunda-feira.
cinco horas de estrada depois, chegamos em guanhães.
um lugar longe. bem longe mesmo. e segundo os locais, o nome é assim porque foi dado por um fanho. faz sentido. completo, absoluto, irrefutável.
cheguei me sentindo estranhamente familiar. já conheço o pessoal do hotel, sei onde fica o melhor bar e restaurante da cidade, que coincidentemente fica em frente ao hotel, porque o universo às vezes é gentil dessa forma.
foi só deixar as malas e correr pra lá. porque eu estava a ponto de comer o reboco das paredes do hotel, o que não seria bacana, até porque eu sigo a dona dele no instagram e ia ficar estranho na próxima story.
o lugar estava vazio. tinha uma pessoa trabalhando lá que ficava gritando, o que me deixou consideravelmente incomodado, mas a moça da cozinha era super simpática, nova, e disposta a resolver o meu problema mais urgente naquele momento.
eu implorei por um lanche com batata frita. do tipo que fosse carinhoso, coerente com a minha fome, e que chegasse antes que eu começasse a avaliar as opções do cardápio de forma mais desesperada, tipo ler a lista de ingredientes do guardanapo só pra ter alguma coisa na boca.
ela fez. ficou perfeito. no final até gravamos um vídeo juntos. prometi que voltaria. não sei que horas e nem como, porque de noite tinha o evento e no dia seguinte eu precisava ir embora cedo. mas promessas feitas com batata frita na mão têm um peso emocional específico que eu levo a sério.
comi como quem aprecia uma obra de arte mas engole ela assim mesmo.
depois uma descansada e partimos pro evento.
uma premiação pra pessoas de destaque da região e do estado de minas. eu sou mineiro? não. sou de minas? também não. mas como eu sou escritor, ó, acredita nisso, eu contribuo bastante com a região e acabei sendo reconhecido por isso. segundo ano consecutivo. um orgulho imenso, daqueles que você não consegue fingir que é pequeno porque não é.
conheci uma senhora muito simpática, como todo bom mineiro. recebi o prêmio.
e então, com o timing preciso de quem treinou essa arte por muitos anos, me levantei pra tirar umas fotos com o prêmio num banner que fica na entrada, do lado de fora. e enquanto eu estava lá, o carro me chamou. coincidência? talvez. destino? provavelmente.
acabei indo parar onde?
no bar restaurante de novo.
porque no evento acabamos não comendo. não vou entrar nos detalhes de como as pessoas avançaram nos queijos parecendo uma coisa meio the walking dead, mas eu decidi que minha dignidade valia mais do que o risco de perder um dedo naquela tábua de frios.
encontrei a vitória de novo. nos reconhecemos, nos abraçamos como velhos amigos que se reencontram depois de horas. comi outro lanche, dessa vez não preparado por ela, mas igualmente necessário.
voltei pro hotel com a sensação de missão cumprida e estômago calmo.
segundo ano consecutivo premiado em minas gerais.
não sou mineiro. mas pelo jeito como eu como, poderia ser
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