dia 276/365.

enrico pierro


Homem sentado em um gramado, usando um celular, com quatro cães ao seu redor, incluindo um cachorro preto, cães Beagle e um cão laranja, em um dia ensolarado.

sábado.

o meu irmão fechou o restaurante. e essa é uma longa história que não cabe aqui. não porque seja segredo, mas porque esse diário é meu, e tem histórias que são dos outros. então fica só o registro: fechou. e a vida segue, que é o que ela sempre faz, mesmo quando a gente não pediu.

e, já que a gente não ia almoçar lá, fomos a um restaurante por quilo.

a ideia foi da minha mãe. ela achou que seria uma boa, já que estávamos em mais gente, e que seria até mais econômico. e eu entendo o raciocínio. no papel, faz todo o sentido. cada um se serve, pesa, paga o que pegou, ninguém pede entrada desnecessária, ninguém pede sobremesa por impulso. é a lógica perfeita.

ela só esqueceu de um detalhe.

eu estava lá.

e eu não sei as regras de um restaurante por quilo. não sei o comportamento esperado. não sei se existe alguma etiqueta social. se existe, ninguém me mandou o manual. porque eu chego naquele bufê e acontece alguma coisa comigo. eu entro em transe. eu pego feijoada, porque eu amo feijoada, e isso é inegociável. aí eu vejo um pastel. e penso: por que não? aí eu vejo um sushi. e penso: claro que combina. aí eu vejo um frango assado. e na minha cabeça aquilo tudo forma um prato coerente, harmonioso, quase um conceito. feijoada com pastel, sushi e frango. uma volta ao mundo em um prato só. um tratado internacional de paz servido num prato raso.

meu estômago discorda. a sociedade provavelmente também. e a minha mãe, com certeza.

porque ali, olhando a balança, ela descobriu uma coisa que vai mudar pra sempre a economia doméstica dessa família: restaurante por quilo não é mais barato se eu estiver presente. muito pelo contrário. eu sou o fator que quebra a matemática. eu sou a variável que nenhuma planilha prevê. se a lógica do por quilo é cada um pagar pelo que come, a lógica do enrico no por quilo é pagar pelo que eu acho que combina. e eu acho que tudo combina.

eu já tinha contado aqui aquela vez da feijoada no clube, que veio num prato feito e eu passei o resto do dia com fome, achando que eu comeria uns cinco daqueles. pois é. hoje ninguém me limitou. e o resultado foi exatamente o que você está imaginando.

eu sou taurino. a gente não se serve. a gente se abastece.

à tarde, eu saí pra dar uma volta pela chácara. e eu queria dizer que foi só pra aproveitar o sol. foi também. mas foi principalmente pra fugir.

porque tinha festa. de novo. com um som insuportável, de quem obviamente não mora no lugar onde faz a festa. porque quem mora não faz isso com a própria casa. quem mora tem vizinho, tem rotina, tem que encarar as mesmas pessoas na segunda-feira. quem só aluga o espaço por um dia não tem nada disso. não tem noção, não tem empatia, não tem educação, não tem senso de comunidade e, bom, a lista é grande. eu poderia continuar até o dia 365.

e não é a primeira vez. provavelmente não vai ser a última. as janelas da minha casa vibram. e não é de alegria. é aquele grave que entra pelo chão, sobe pelas paredes e se instala dentro do seu peito como se tivesse pago ingresso. quando eu reclamo, me xingam. eu, que estou dentro da minha própria casa, viro o problema. já cheguei a sair de casa, a viajar, quando eu sei que vai ter festa. de tão insuportável que é. o som e eles.

eles parecem bárbaros. dizem que os neandertais deixaram um pouquinho de dna em todos nós. eu não sei quanto ficou em cada pessoa. mas eu sei exatamente onde ele está mais concentrado, e é a uns poucos metros da minha janela, todo fim de semana em que tem festa.

então eu fui pro outro lado da chácara. sentei no sol, no meio da natureza, naquele cenário bonito que a gente esquece que tem quando passa a semana inteira correndo. e chamei os cachorros pra passear, coisa que eles adoram. e foi lindo. foi todo mundo correndo comigo, aquela festa de rabo abanando, orelha voando, todo mundo animado como se estivesse indo pra disney.

eu sentei. eles correram e saíram explorando o lugar. cheirando tudo, descobrindo tudo, felizes da vida.

durou três minutos.

eu baixei a cabeça pra conferir uma coisa no celular. três minutos. só três. levantei a cabeça e cadê eles? ninguém. nenhum. silêncio. quer dizer, silêncio não, porque a festa continuava. mas nenhum cachorro. eu, sozinho, sentado no sol, no meio da chácara, feito um figurante esquecido depois que o diretor gritou corta.

tinha todo mundo voltado pra casa.

e olha que eu tenho cachorro de raça criada pra correr no campo atrás de coelho. raça que, em tese, deveria passar o dia inteiro farejando, correndo, explorando. e eles preferiram voltar pro sofá. três minutos de natureza e pronto, já deu, obrigado pela experiência, a gente volta outro dia.

eu acho que eu tenho cachorros de apartamento com a raça errada. só pode.

ou, pensando bem, eles só são parecidos comigo. animados na ida, entusiasmados nos primeiros minutos, e loucos pra voltar pra casa logo depois.

aí eu não posso nem reclamar.


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