dia 277/365.

dia de eleição.
e eu adoro como dia de eleição tem uma cara própria. as ruas ficam diferentes. tem gente andando com aquele papelzinho na mão, tem fila em porta de escola num domingo, tem santinho no chão como confete de um carnaval que ninguém pediu. é o único dia do ano em que o brasil inteiro acorda com o mesmo compromisso. e, por algumas horas, todo mundo vira cidadão ao mesmo tempo.
tomamos café e fomos votar. quer dizer, eu e a minha mãe fomos votar. o john foi junto, de acompanhante. estava um pouco cheio, mas foi tranquilo. entramos, votamos, saímos. a democracia, quando funciona, é rápida.
depois eu levei o john no hospital, pra ver essa tosse que não passa. nunca. a tosse dele já está há tanto tempo com a gente que eu acho que ela já tem direito a usucapião. ele fez tomografia e exame de sangue, e o resultado só ia sair à noite. então a gente saiu de lá com aquela sensação de prova entregue e nota só no fim do dia.
então o tempo deu uma virada que eu nunca tinha visto. do nada. de um calor gostoso virou uma ventania, depois uma neblina, depois chuva. e chegou até alerta severo da defesa civil, daqueles que fazem o celular vibrar com uma urgência que dá vontade de correr pra debaixo da mesa. o céu também resolveu ir às urnas. e, pelo jeito, votou em todos os candidatos ao mesmo tempo.
eu e a previsão do tempo seguimos sem nos falar, mas confesso que hoje eu fiquei com uma pontinha de pena dela. ninguém consegue prever um dia desses. nem ela. nem os institutos de pesquisa.
e aí foi a vez dele de votar. as ruas estavam bem cheias, mas a escola dele estava vazia. ele entrou e saiu em menos de cinco minutos. eu fiquei no carro esperando e mal deu tempo de eu pegar o celular. foi o voto mais eficiente da história da república. se todo serviço público funcionasse no ritmo da seção eleitoral do john, o brasil era outro.
almoçamos na casa dos pais do john, com chuva. voltamos pra casa. dormimos, porque domingo, almoço de família e chuva formam a trindade sagrada do cochilo.
de noite voltamos ao hospital pra pegar os resultados.
e foi assustador. não pelos exames. pelo movimento. eu já contei aqui que esse é o hospital que eu frequento com o john, aquele mesmo onde, dias atrás, eu cheguei deitando no balcão da recepção e fui tratado como celebridade justamente porque não tinha ninguém. eu nunca tinha visto aquele hospital com mais de duas pessoas ao mesmo tempo. hoje tinha umas dez. dez. pra quem está acostumado com o deserto, aquilo parecia show de rock. eu fiquei olhando em volta, meio desconfiado, pensando se alguém ia ganhar a minha poltrona e o meu médico agachado.
mas os exames estavam ok.
ok. aquela palavra que eu já disse aqui que virou o novo maravilhoso. tomografia ok, sangue ok, john ok. a tosse continua lá, teimosa, morando com a gente sem dividir as contas. mas não tem nada de grave. e, num dia de alerta severo, isso já valia uma comemoração.
então a gente comemorou do jeito mais democrático possível: pizza.
da eleição, eu prefiro não comentar.
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