dia 103/365.



todo mundo perdeu a hora.

eu, o john, minha mãe, a nica. cada um no seu canto, cada um com seu despertador ignorado, cada um chegando atrasado pra segunda-feira como se tivesse havido um acordo silencioso que ninguém assinou, mas todo mundo cumpriu direitinho.

e tem algo curioso nisso. porque não foi coincidência exatamente. foi quase uma declaração coletiva. um não-verbal compartilhado entre quatro pessoas que, sem combinar, decidiram a mesma coisa ao mesmo tempo: ainda não.

mas aí eu fico pensando. a culpa é da segunda?

não. a culpa nunca é da segunda. eu já falei isso aqui antes e continuo achando verdade. a segunda é só um dia. ela não conspira, não planeja, não acorda decidida a estragar ninguém. ela só existe. quem dá o peso pra ela somos nós. com a nossa rotina, com o que fazemos dela, com o que escolhemos construir nos outros cinco dias da semana.

se a segunda pesa, talvez seja porque tem alguma coisa na vida que já vinha pesando antes dela. e a segunda só aparece como destino natural de tudo isso. o repositório oficial das insatisfações que a gente foi acumulando ao longo da semana anterior, do final de semana que não descansou como deveria, dos problemas que a gente tentou deixar pra depois e que estavam lá, esperando, pontuais como sempre.

a pergunta que fica, e que eu acho mais honesta do que reclamar do dia, é outra: o que eu estou fazendo com os outros seis?

e acordei com dor de garganta. uma daquelas que você sente antes de abrir os olhos, que já está lá quando a consciência chega, antes mesmo do café, antes de qualquer decisão sobre o dia. o corpo sempre tem opinião própria. ele não pede licença, não escolhe momento oportuno, não espera você estar pronto. ele só fala. e às vezes o que ele fala não tem nada a ver com vírus ou mudança de temperatura.

às vezes ele só está cobrando o que a cabeça finge que não deve.

no geral, foi uma segunda razoável. e, pra uma segunda, razoável já é quase um elogio. ainda mais quando todo mundo aqui perdeu a hora e o dia ainda assim aconteceu, funcionou, seguiu. talvez seja isso. talvez a gente subestime o quanto as coisas continuam mesmo quando a gente começa atrasado.

inclusive a gente mesmo.


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