dia 102/365.



domingo costuma ser um dia meio sem forma. às vezes passa rápido, às vezes se arrasta, às vezes termina sem deixar muita coisa pra contar. é quase um dia de transição. uma pausa antes do peso da semana bater na porta.

mas tem uma coisa que se repete. quase sempre igual. quase sempre no mesmo horário.

eu cozinho pra minha mãe.

na verdade, isso começou quando meu pai não estava bem, quando ele ficou acamado, fui eu que comecei a assumir o jantar nos finais de semana. não foi uma decisão pensada, planejada, discutida em família com ata de reunião e tudo mais. foi acontecendo. precisava de alguém pra fazer, eu estava lá, e eu fiz.

depois que ele se foi, isso ficou.

de um jeito silencioso. sem ninguém combinar, sem ninguém pedir, sem nenhum combinado formal. simplesmente… continuou.

e o curioso é que eu nunca fui de cozinhar. não é algo que faz parte de mim de forma natural, orgânica, espontânea. não cresci com isso, não tenho aquela memória afetiva de infância com cheiro de comida, de receita de família passada de geração em geração com aquele romantismo todo. pra ser completamente honesto, eu ainda nem sei se gosto de cozinhar.

mas eu faço.

e não é sobre a comida. nunca foi.

é sobre ela não precisar se preocupar com isso. é sobre manter alguma coisa funcionando, mesmo que de forma improvisada. é sobre ocupar um espaço que ficou vazio de um jeito que eu nunca imaginei que fosse possível, nem que fosse meu.

às vezes eu estou ali, mexendo em panela, tentando acertar ponto, improvisando muito mais do que seguindo qualquer lógica culinária, e me pego pensando nisso. não exatamente no que eu estou fazendo, mas no porquê eu continuo fazendo.

e o porquê, quando eu paro pra olhar com honestidade, é muito simples.

é cuidado. ou pra ser mais exato: é amor. do tipo incondicional.

não tem nada de extraordinário nisso. não é um gesto grandioso, não é algo que transforma tudo, não é uma história bonita de instagram sobre amor filial com filtro quente e trilha sonora emotiva. é só constante. é repetido. é presente.

e talvez seja exatamente isso que sustenta mais do que qualquer coisa grandiosa jamais sustentaria.

no meio de um domingo que não teve nada aparentemente especial, teve isso. acho que no fundo os meus domingos são realmente muito mais do que especiais.


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