dia 110/365.



eu não quero escrever esse texto.

mas eu preciso.

foi véspera de feriado. dia ok, trabalho tranquilo, nada de mais. a alê ainda estava aqui, ficou comigo na fábrica o dia todo. de noite descemos pra jantar. foi quando o leandro começou a latir. o leandro é nosso cocker, e ele tem um latido de alerta. diferente. a gente que convive sabe.

fomos olhar nas câmeras.

parecia brincadeira. não era.

eu não vou descrever o que vi. não consigo. e não quero. só vou dizer que menos de uma hora depois eu estava no chão, chorando, pedindo desculpa e me despedindo da zara.

a zara era beagle. resgatada depois de muito sofrimento, antes mesmo de chegar até a gente. quando chegou aqui, comia com desespero. aquela fome de quem já passou por coisa que não devia. quase dois anos depois, ela cheirava tudo antes de pegar com a pontinha dos lábios, pra decidir com calma se aquilo merecia sua atenção. virou a maior princesa. e eu adorava brincar com ela e dizer: “se um dia eu sofri, eu não lembro, né zara?”

ela corria a chácara inteira e voltava com dois metros de língua pra fora e o rabo batendo feito ventilador. a mais carinhosa da casa. a mais calma. e a mais alegre quando brincava.

e ela nunca revidou. nunca. nas vezes em que apanhou, ela deitava de barriga pra cima e ficava. o que lhe causou machucados sérios por conta disso, mas ela não revidava, não se defendia. e quando voltava pra casa depois de cada atendimento médico, ia até a fox, até a pandora, com o rabo abanando. chamando pra brincar. como se nada tivesse acontecido.

eu sempre achei que entendia o que era perdão.

a zara me mostrou que eu não entendia nada.

perdão de verdade não guarda. não cobra. não espera o outro merecer pra oferecer. ele simplesmente existe, limpo, sem condição, sem memória do que foi feito. ela vivia isso. no corpo, inclusive. com cicatrizes que contavam histórias que ela nunca usou pra se justificar.

e agora eu fico aqui com a minha culpa, que é enorme e que eu não vou fingir que não é. eu queria ter protegido ela. queria ter impedido. queria que ela, depois de tudo que já tinha passado antes de chegar até a gente, tivesse tido só paz. ela merecia só paz.

eu não consegui. e isso doi de um jeito que eu não sei colocar em palavras direito. doi na alma, sabe? daquele jeito que não passa rápido.

mas eu olho pra tudo que ela foi e fico com uma pergunta que eu acho que vai ficar por um tempo:

ela perdoou tanto, com tanta leveza, sem guardar nada.

será que eu aprendi alguma coisa com isso? será que eu fui merecedor de ter convivido com alguém assim?

você foi, você é e você será. o papai te ama e nunca vai te esquecer. espero que você também tenha me perdoado pela minha falha com você. eu sempre sempre sempre vou te amar.

agora descansa, zara. se um dia você sofreu, eu espero de verdade que você não lembre.


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