
sexta-feira. dia de malabarismo no trabalho.
aqueles em que a fé deixa de ser opcional e vira ferramenta. quase um item da caixa de manutenção, junto com chave de fenda, alicate e paciência. você não escolhe usar — usa porque é o que sobrou.
e eu ficava pensando nisso enquanto resolvia uma coisa atrás da outra. todo mundo passa por isso, de alguma forma. cada um na sua versão, no seu setor, com suas paredes desabando ao redor. é parte do contrato implícito da vida adulta, dessa coisa que ninguém te explica direito mas que cobra entrega todo dia.
mas aí, em algum momento do dia, veio uma pergunta. dessas que você não chama, ela aparece sozinha. encosta no ombro e fica.
por que a gente faz isso?
e antes que isso pareça pergunta romântica, com final bonito sobre largar tudo pra abrir uma cafeteria em portugal, calma. não é. eu sei que a maioria das pessoas não faz o que gosta. eu sei que a vida não é uma propaganda de instagram. tem gente acordando às quatro da manhã pra colocar comida na mesa, tem gente fazendo o que tem que ser feito porque alguém precisa fazer, tem gente que sequer teve a chance de descobrir do que gostaria.
e eu respeito profundamente isso. não dá pra falar de propósito sem antes falar de barriga cheia. quem tenta está mentindo, ou nunca passou fome.
mas existe um meio termo.
existe um espaço entre o “eu não posso escolher” e o “eu não escolho porque é mais fácil não pensar”. e é nesse espaço que mora a maior parte das pessoas que eu conheço. inclusive eu, em vários momentos da minha vida.
a sobrevivência tem um efeito quase anestésico. você passa tanto tempo só sobrevivendo que esquece que existe outra coisa. esquece que um dia teve vontade. esquece que sonhou. esquece que pensou em algo diferente. e aí o trabalho deixa de ser meio e vira fim. a rotina deixa de ser estrutura e vira jaula. e você se acostuma.
essa é a parte mais cruel. você se acostuma.
e quando alguém pergunta se você gosta do que faz, você responde aquela coisa automática: “ah, é o que tem”. e segue. com aquela meia satisfação de quem aceitou o que recebeu como se fosse a única opção possível.
mas e se não for?
eu não tenho resposta pronta. não vou fingir que tenho. mas eu acho que a pergunta é o começo. é o primeiro movimento de quem ainda não desistiu completamente. é o primeiro sinal de que talvez exista alguma coisa diferente do outro lado dessa rotina que parece imutável.
talvez a gente não precise mudar tudo. talvez seja encontrar sentido onde antes só tinha cumprimento de tarefa. talvez seja dar um passo pequeno, ter uma conversa que você adia há anos, escrever um plano numa folha solta de caderno. ou talvez seja, sim, virar tudo de cabeça pra baixo. depende de cada um. depende da história. depende da fome, do medo, da fé.
mas a pergunta não pode morrer.
porque o pior dos cárceres é aquele em que você esqueceu que tinha cadeado.
eu termino essa sexta cansado. fiz o que precisava ser feito, entreguei o que costumo entregar. mas vou dormir hoje pensando nisso. e talvez você também devesse.
será que essa é a vida que eu escolhi, ou a que aconteceu comigo enquanto eu estava distraído? quantas vezes eu já adiei me fazer essa pergunta porque a resposta talvez fosse desconfortável demais? quantas vezes eu fingi que não escutava ela quando ela aparecia, baixinho, no meio de uma terça qualquer?
essas perguntas doem. mas elas são, no fundo, um privilégio. porque significa que ainda tem alguma coisa acordada por dentro. ainda tem espaço pra mudança. ainda tem fôlego pra recomeçar.
a maioria vai morrer sem se fazer essas perguntas. vai morrer com a vida inteira pendurada numa resposta automática que aceitou um dia, sem perceber, achando que era provisória.
eu não quero isso pra mim.
e tenho a impressão de que você, lendo isso agora, também não quer pra você.
então talvez a gente comece por aqui. não com uma decisão grandiosa, não com uma virada de mesa. só com a pergunta acordada. só com a recusa silenciosa de continuar fingindo que não sabe.
às vezes é assim que tudo começa. uma pergunta que se recusa a dormir.
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