
acordei tarde. não foi sono. foi cansaço de outra ordem.
aquele cansaço que não dorme direito porque não vem do corpo. vem da cabeça, da alma, de algum lugar mais fundo que a gente não tem mapa. você dorme oito horas, dez horas, doze, e acorda com a mesma sensação de que não descansou. porque o que precisa descansar não é o músculo. é outra coisa, mais difícil de nomear.
acabei almoçando no shopping. aquele almoço que mais parece um café da manhã estendido. o corpo pedindo arrego antes mesmo do dia começar de verdade.
e foi ali, sentado, comendo devagar, que eu comecei a olhar as pessoas.
elas passavam. cada uma com uma sacola, um celular na mão, uma pressa que parecia importante mas que ninguém saberia explicar direito se fosse perguntado. e eu fiquei pensando em cada uma delas. em quem elas são quando ninguém está olhando. em pra onde estão indo, no sentido literal e no sentido grande da palavra. em quantas delas dormiram ontem com o mesmo peso que eu carrego hoje.
shopping é um lugar curioso pra essa observação. todo mundo está ali fazendo a mesma coisa, mais ou menos: gastando algum tempo, gastando algum dinheiro, tentando preencher alguma coisa. e ninguém olha pra ninguém de verdade. é uma multidão de solidões organizadas, andando em paralelo, sem se cruzarem nunca de fato.
e eu pensei: será que eu pareço com eles?
provavelmente sim. provavelmente eu também era, naquele momento, só mais uma pessoa sentada numa praça de alimentação, com algum peso invisível, comendo sem fome, olhando sem ver. ninguém ali olhou pra mim e pensou: “esse rapaz não está bem”. porque a vida adulta tem essa habilidade discreta. a gente aprende a carregar tudo sem deixar transparecer. fica tudo organizado por dentro e impecável por fora.
e talvez seja por isso que dói tanto às vezes.
porque quando você olha em volta e tudo parece funcionar, parece normal, parece adequado, é fácil pensar que o problema é só seu. que todo mundo está bem menos você. que existe uma vida certa acontecendo do outro lado e você está perdendo o roteiro.
mas não é assim. eu olhei aquelas pessoas e pensei que provavelmente cada uma delas tinha algo. uma briga não resolvida, uma saudade que não passou, uma pergunta engasgada na garganta que ninguém quer ouvir. cada um carregando o seu, em silêncio, fingindo que está tudo bem porque é mais fácil do que explicar.
a gente vive numa epidemia silenciosa de coisas não ditas.
e ao mesmo tempo, tem alguma coisa quase bonita nisso. nessa força coletiva, não combinada, de seguir mesmo sem entender direito o porquê. todas aquelas pessoas estavam ali, num sábado qualquer, fazendo o que dava pra fazer. comprando algo que talvez nem precisassem, mas comprando. comendo algo gostoso porque a semana foi pesada. tentando, do jeito delas, manter alguma coisa girando.
talvez seja isso que ninguém conta sobre a vida adulta. ela não é sobre encontrar a resposta. ela é sobre seguir andando enquanto a pergunta continua sem responder.
eu saí dali ainda cansado. não foi um almoço transformador. não tive uma epifania entre a comida japonesa e a sobremesa. mas saí com um pouco menos de peso, e eu acho que sei por quê.
porque eu lembrei que não estou sozinho.
estamos todos meio perdidos, todos meio cansados, todos carregando algo que não cabe na sacola. e mesmo assim, todo dia, a gente acorda e tenta de novo. e isso, no fundo, é uma forma de coragem que ninguém celebra direito.
talvez seja a coragem mais comum, e por isso mesmo a mais subestimada.
a de simplesmente continuar.
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