
eu olhei pro calendário hoje e levei um susto.
não foi um susto bonito, daqueles que vêm acompanhados de epifania. foi outro tipo. foi o susto de perceber que o mês está acabando e que eu, sinceramente, mal vi ele passar. abril foi embora enquanto eu estava ocupado segurando outras coisas. e quando levantei a cabeça, ele já estava no fim, com aquela cara de despedida silenciosa que os meses têm quando você não prestou atenção neles.
isso me incomodou. e me incomodou de um jeito que eu não consegui ignorar.
porque tem uma coisa estranha que acontece quando a gente vive períodos pesados. semanas difíceis na empresa, no trabalho, em qualquer dimensão da vida que esteja exigindo demais. os dias começam a se parecer uns com os outros. perdem identidade. viram uma sequência meio borrada de obrigações cumpridas, problemas contornados, demandas atendidas. você atravessa, mas atravessa em uma espécie de modo automático, sem registrar direito o que aconteceu.
e aí, quando você vai tentar lembrar, não acha muita coisa.
não é amnésia. é outra coisa. é uma economia silenciosa que o cérebro faz quando percebe que você está sob pressão por muito tempo. ele para de gravar com tanto detalhe. para de marcar pequenas memórias. começa a tratar os dias como se fossem variações de um mesmo dia genérico chamado “essa fase”. e essa fase pode durar uma semana, um mês, um ano. e quando ela acaba, sobra uma sensação esquisita de que você esteve em algum lugar, mas não consegue desenhar direito o mapa.
acho que isso é uma forma de proteção.
porque se a gente tivesse que carregar, com toda a vivacidade, cada minuto de uma fase difícil, talvez não conseguisse atravessar. então o cérebro faz uma compressão. junta tudo num arquivo só, etiquetado como “aquela época complicada”, e segue. é uma misericórdia disfarçada de esquecimento. uma gentileza que a gente não pediu, mas que recebe de qualquer forma.
só que isso tem um preço.
o preço é que partes inteiras da nossa vida acabam acontecendo sem que a gente esteja totalmente presente nelas. abril vai embora, depois maio, depois junho, e em algum momento você se pega olhando pro espelho pensando: cadê eu nesse ano todo? em que momento isso tudo passou?
a vida tem essa habilidade meio cruel de continuar acontecendo mesmo quando você está no piloto automático. ela não para. ela não te espera. ela não diz “olha, vou ficar parada aqui até você se recompor pra a gente seguir junto”. ela segue. e você segue dentro dela, fazendo o que dá pra fazer com o que tem.
e talvez essa seja uma das percepções mais difíceis da vida adulta. perceber que tem fases inteiras que vão ser, no máximo, atravessadas. não vividas com plenitude, não saboreadas, não registradas em alta resolução. só atravessadas. e que isso faz parte. que nem todo período da vida vai ser memorável, e que, em alguns momentos, simplesmente chegar do outro lado já é vitória.
mas eu acho que existe uma forma de minimizar isso. não de eliminar, porque acho impossível. mas de minimizar.
e é exatamente o que eu estou fazendo agora, escrevendo isso aqui.
porque o diário, no fundo, é um pequeno protesto contra esse apagamento. é uma tentativa silenciosa de não deixar todos os dias virarem o mesmo dia. de gravar, mesmo que de forma simples, mesmo que com poucas palavras, mesmo que sem grandes acontecimentos. é uma forma de dizer: eu estive aqui. esse dia existiu. ele teve algo, mesmo que esse algo tenha sido só o cansaço, só a constatação de mais uma terça atravessada.
e quando eu olho pra trás daqui um tempo, talvez essas linhas sejam o que vai me devolver os dias que eu, sem perceber, estive prestes a perder.
talvez seja isso que torna o exercício de registrar tão importante. não a beleza do que se escreve. não a profundidade da reflexão. mas o ato em si de pausar, de prestar atenção, de transformar um dia genérico em um dia específico, de obrigar o cérebro a separar uma quarta-feira de uma quinta, mesmo quando elas se parecem demais.
porque no fundo, viver em modo automático é uma forma sutil de não viver. você está ali, funcionando, cumprindo, entregando. mas você está ausente da própria existência. e isso, com o tempo, se acumula. vira anos que passaram sem deixar rastro. vira a sensação amarga, lá na frente, de não ter realmente habitado o tempo que teve.
eu não quero isso pra mim.
mesmo nas semanas mais pesadas, mesmo nos meses mais corridos, mesmo nas fases em que o automático parece a única opção possível. eu quero deixar pelo menos pequenas marcas. registros mínimos. sinais de que eu estive ali, presente, atento, mesmo que apenas por alguns minutos no fim do dia.
talvez você também devesse fazer isso.
não precisa ser um diário. não precisa ser bonito. pode ser uma frase no celular, uma anotação rabiscada, uma foto, uma mensagem pra você mesmo. qualquer coisa que sirva como uma pequena âncora no meio da correnteza, dizendo: hoje aconteceu. eu vivi esse dia. ele não foi só mais um.
porque os meses vão continuar passando rápido. isso a gente não controla. mas o quanto a gente esteve presente neles, isso, de alguma forma, ainda é nosso.
e quando alguém perguntar daqui a anos como foi o seu abril, talvez você não lembre dos detalhes. mas talvez consiga responder com alguma honestidade: eu estive lá. inteiro. na medida do possível.
e talvez seja só isso que importa.
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