dia 120/365.



véspera de feriado.

e eu estava feliz. genuinamente. daquele tipo de felicidade meio adolescente, meio ansiosa, que te faz contar as horas como se fossem moedas preciosas. amanhã. amanhã não tem alarme. amanhã não tem reunião. amanhã eu posso simplesmente não fazer nada e ninguém vai cobrar.

mas tem uma coisa que eu reparei sobre essa felicidade específica, e que eu acho que merece ser dita.

quando você fica feliz demais com uma véspera de feriado, alguma coisa está errada.

não na véspera. ela é só uma véspera. ela não tem culpa. o problema é o que ela revela. porque a felicidade desproporcional com o fim do expediente, com a sexta-feira chegando, com o feriado prolongado se desenhando no horizonte, é quase sempre o sintoma de uma rotina que está cobrando mais do que devia. é a confissão silenciosa de que o resto dos dias virou suportável apenas pela promessa do próximo descanso.

e quando você percebe isso, é difícil voltar a achar a sexta-feira tão inocente.

porque viver de pausa em pausa não é viver. é resistir. é atravessar a semana de cabeça baixa esperando o oásis. é converter os domingos em uma espécie de estação de descompressão antes do mergulho de novo. e em algum momento, sem você notar, a sua vida virou um intervalo curto entre intervalos. cinco dias suportando, dois dias respirando. e o ciclo se repetindo, infinitamente, até a aposentadoria, ou até a exaustão, ou até a vida cobrar de uma forma que não dá pra ignorar.

eu estava ali, deitado, e essa percepção começou a chegar. e ela chegou junto com outra coisa. porque por mais feliz que eu estivesse com a perspectiva do feriado, eu também estava no chão. literalmente no chão, deitado pensando, tentando processar uma série de coisas que estariam me esperando na segunda. problemas que o feriado não ia resolver. preocupações que iam tirar férias junto comigo, mas que eu sabia que iam estar exatamente do mesmo tamanho quando eu voltasse.

e isso é uma das experiências mais estranhas da vida adulta. essa coisa de comemorar uma pausa que você sabe que não vai pausar nada de fato.

porque a cabeça não tira folga. ela vai com você. ela embarca no carro, ela atravessa a estrada, ela chega no destino e abre as malas junto. e quando você senta na praia, ou na varanda, ou onde quer que tenha decidido descansar, ela está lá, organizando a planilha mental dos seus problemas, fazendo agenda da próxima semana, antecipando reunião que ainda nem foi marcada.

eu estava no chão, então. feliz e no chão. o paradoxo perfeito.

e foi exatamente nesse momento que aconteceu uma coisa que eu não sei explicar direito.

não foi nada espetacular. nada que renderia uma história boa. foi mais sutil do que isso. foi quase uma percepção, quase uma virada interna, quase um sussurro. eu estava ali, meio abatido apesar da empolgação, e alguma coisa me fez perceber que talvez eu estivesse focado nas coisas erradas. que talvez a segunda-feira chegasse, sim, com seus problemas inteiros, mas que talvez eu também chegasse nela diferente. que talvez o caminho não fosse tentar controlar o que vai me esperar lá, mas confiar que vou ter o que precisar quando chegar a hora.

e essa coisa de confiar é difícil de explicar pra quem nunca sentiu. parece ingênua. parece passiva. mas não é. é uma forma ativa de respeito por algo maior do que você. é entender que o seu controle tem limite, e que tudo que está fora desse limite, alguma coisa cuida. pode chamar como quiser. eu chamo de deus. mas o nome importa menos do que a sensação. a sensação de não estar sozinho carregando tudo.

deus age de formas misteriosas. essa frase está em todo lugar, virou quase clichê. mas eu acho que ela só vira clichê pra quem não viveu o suficiente pra ver ela funcionando. porque tem horas, em momentos muito específicos, que alguma coisa se move. uma porta se abre. uma palavra chega. um sentimento muda de direção. e você sabe, sem conseguir provar, que aquilo não veio só de você.

eu fui dormir aquela véspera com uma sensação diferente. não tinha resolvido nada. os problemas estavam todos lá, exatamente do mesmo tamanho, esperando educadamente a segunda-feira chegar pra reaparecer. mas eu estava em outro lugar internamente. tinha conseguido, por algum mecanismo que não veio só de mim, entregar uma parte do peso. não tudo. seria desonesto dizer que tudo. mas o suficiente pra dormir.

e eu acho que, no fundo, é isso que sustenta a gente nos períodos difíceis.

não é o feriado. não é o fim de semana. não é a próxima viagem. é essa capacidade rara de, em algum momento do caos, conseguir baixar a guarda por dentro. confiar que você não precisa segurar o universo inteiro com as suas duas mãos. acreditar, contra toda evidência aparente, que existe uma rede que ampara o que você não consegue mais carregar.

e talvez seja por isso que tantas tradições, tantas religiões, tantas filosofias, todas elas, em culturas completamente diferentes, falaram sobre isso. cada uma do seu jeito, cada uma com suas palavras. mas todas apontando pro mesmo lugar. esse lugar dentro da gente que sabe descansar mesmo no meio da tempestade. esse lugar que não é negação do problema, mas que também não é refém dele.

a véspera de feriado me ensinou isso, ironicamente. não pela alegria que ela trouxe, mas pelo contraste. por me mostrar que a alegria do alívio é, no fundo, uma alegria pequena demais pra sustentar uma vida. ela serve. ela tem seu lugar. mas se for só ela, é pouco.

a alegria que sustenta de verdade é outra. é mais quieta, menos eufórica, menos dependente de calendário. ela não precisa da segunda-feira não chegar. ela aceita a segunda-feira chegando. e ainda assim, segue inteira.

eu ainda não tenho ela toda. ninguém tem. mas eu provei dela hoje, deitado no chão, pensando nos problemas que viriam, e mesmo assim conseguindo respirar.

e isso já é muito mais do que eu sabia que era possível.


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