dia 123/365.



domingo de feriado tem uma textura estranha. ele é descanso e despedida ao mesmo tempo. você ainda está de folga, mas a folga já está terminando, e isso muda alguma coisa no peso do dia.

almocei em família, na chácara. e eu vou ser honesto numa coisa, mesmo que pareça estranho: tem ambientes onde eu me sinto deslocado. esse é um deles. não é por culpa de ninguém. não é uma reclamação sobre as pessoas. é só uma constatação interna, dessas que a gente carrega sem saber bem o que fazer com elas. existem espaços em que você cabe naturalmente e existem espaços em que você está, mas não pertence inteiramente. e está tudo bem reconhecer isso, mesmo que machuque um pouquinho admitir.

de noite eu fiz o jantar. e eu já falei aqui, mas vale repetir: eu até tenho gostado de fazer o jantar, apesar de não ter muito repertório. eu mais improviso do que cozinho de fato. mas tem alguma coisa nessa arte de preparar a comida pra quem a gente ama, que ultrapassa a comida em si. talvez seja o gesto, ou o cuidado que isso envolve. um jeito de dizer que eu estou aqui, estou cuidado, que eu amo sem precisar dizer nada. e ações dizem muito mais do que qualquer palavra.

depois do jantar a alê foi embora. e o domingo foi terminando do jeito que os domingos terminam: em câmera lenta, com aquela luz mais baixa de fim de feriado, com a sensação meio melancólica de quem sabe que algo está se encerrando.

e foi à noite que o domingo guardou pra mim a sua reviravolta cruel.

eu dormi mal. mal de verdade.

e não foi insônia. insônia tem um nome, tem uma forma reconhecível, é quando você não dorme. o que eu tive foi pior, na minha opinião. dormi, mas dormi quebrado. acordei várias vezes, em horários diferentes, sem motivo aparente. o sono não engatava. ele começava, escorregava, se interrompia, recomeçava em outro estágio. amanheci como quem não dormiu nada, com aquele cansaço específico que vem das noites em que o corpo descansa, mas a cabeça não.

e a parte mais incômoda foi entender por quê.

porque três dias atrás, na véspera do feriado, eu tinha feito um exercício honesto comigo mesmo. tinha decidido entregar. tinha encontrado, mesmo que de forma imperfeita, uma certa paz com os problemas que estavam me esperando. confiei. acreditei. fui dormir leve depois daquilo, e levei comigo essa leveza pelo feriado todo.

mas a segunda-feira estava batendo na porta. e o peso voltou.

voltou inteiro, sem aviso, como se aqueles três dias de tranquilidade tivessem sido apenas uma trégua diplomática. a ansiedade reapareceu com a mesma intensidade de antes, talvez até maior, porque agora ela vinha somada à frustração de eu achar que tinha resolvido. de eu achar que tinha vencido aquilo. de eu acreditar, ingenuamente, que entregar é uma coisa que se faz uma vez e está feito.

e essa é a percepção que eu quero deixar aqui hoje, porque acho que muita gente vai se reconhecer.

a fé não funciona como uma cirurgia. você não entrega o problema, fica curado, e segue feliz pra sempre. a fé é mais parecida com respiração. é um ato contínuo. você precisa entregar de novo. e de novo. e de novo. porque a cabeça é teimosa, a ansiedade é insistente, e o ser humano tem essa habilidade quase admirável de retomar o controle daquilo que já tinha soltado, sem perceber que está fazendo isso.

eu entreguei na sexta. eu retomei no domingo à noite. provavelmente sem perceber, provavelmente em pequenos pensamentos que pareciam inocentes mas que estavam, lentamente, recolocando o peso de volta nos meus ombros.

e o corpo, esse mensageiro fiel, foi quem deu o aviso primeiro. dormiu mal. acordou várias vezes. não conseguiu desligar. porque o corpo sente antes da gente reconhecer. ele vai dando sinais discretos do que a mente ainda está tentando esconder. e quando a gente não escuta, ele aumenta o volume, até que a gente pare e olhe.

eu acho que tem uma honestidade necessária aqui, especialmente pra quem lê e talvez se identifique. ninguém atravessa períodos difíceis em linha reta. ninguém entrega pra deus, pra vida, pro universo, pro que quer que seja, e fica em paz pra sempre. o exercício é constante. as recaídas fazem parte. e cada vez que você se pega de novo carregando o que tinha entregado, você não está falhando. você só está vivendo.

e talvez seja por isso que tantos textos antigos, de tradições muito diferentes, falam em “orar sem cessar”, em “voltar ao centro”, em “lembrar de novo”. porque os autores desses textos sabiam, há séculos, o que a gente continua descobrindo a cada geração: a paz não é um estado fixo. é uma prática. e como toda prática, exige repetição.

eu vou tentar entregar de novo amanhã. e provavelmente vou retomar à tarde, sem perceber. e vou ter que entregar mais uma vez à noite. e assim por diante. é cansativo, mas é o jeito.

e eu acho que tem algo importante em aceitar isso sem pesar. em parar de se cobrar a perfeição da fé inabalável. em entender que vacilar não invalida o caminho. em reconhecer que a humanidade dentro da gente vai sempre, sempre, querer pegar de volta o que a parte espiritual conseguiu soltar.

a luta é entre essas duas partes. e não tem vitória definitiva. tem só pequenas escolhas, repetidas todos os dias, em todas as horas, de qual delas você vai alimentar mais.

hoje à noite eu não vou conseguir dormir bem de novo. eu já sei. a segunda-feira está perto demais, e o corpo já está se preparando pro impacto. mas amanhã, em algum momento do dia, eu vou tentar de novo. encostar a cabeça em alguma coisa maior, respirar, soltar, mesmo que por dez minutos.

dez minutos de paz são muito mais do que zero.

e talvez seja isso que ninguém conta sobre essa caminhada toda. ela não é feita de grandes vitórias. é feita de pequenos retornos. de quantas vezes você consegue voltar ao lugar de paz, mesmo depois de ter saído dele inúmeras vezes.

porque sair, todo mundo sai. o que diferencia é quem volta.


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