dia 124/365.



acabei ficando mais tempo em casa hoje de manhã. depois daquela noite mal dormida, o corpo cobrou. e eu, sinceramente, não tinha pressa nenhuma de chegar mais cedo no que eu já sabia que ia ser uma segunda pesada.

porque eu já tinha calculado tudo. e quando eu digo tudo, é tudo mesmo.

tem coisas da vida adulta que ninguém ensina a gente a fazer, mas que a gente acaba aprendendo na marra. uma delas é essa: antecipar problema. virar quase um especialista em prever cenários ruins. eu já estava com a planilha mental rodando havia dias. tinha um problema financeiro previsto pra cair bem nessa segunda, daqueles que mexem com a estrutura inteira da semana. eu já tinha olhado pelos ângulos possíveis, simulado os desdobramentos, calculado o impacto. e tinha dado por certo.

já estava me preparando emocionalmente. já estava mentalizando como ia explicar, como ia resolver, como ia correr atrás. acreditei tanto no cenário ruim que ele já tinha tomado conta da segunda-feira inteira antes mesmo dela começar.

e aí o que aconteceu? não aconteceu.

simplesmente não aconteceu. o problema não se concretizou. e ainda por cima, o dia me trouxe uma boa surpresa pelo lado oposto. coisas que estavam encaminhadas e que eu nem estava esperando que rendessem nesse momento, renderam. e o que parecia, na sexta-feira, uma armadilha inevitável, virou uma segunda-feira boa. melhor do que boa.

e quando eu percebi isso, sentado, quase sem acreditar, foi inevitável a reflexão que veio.

eu tinha gasto dias me preparando para uma queda que não aconteceu.

e isso, eu acho, é uma das coisas mais cruéis que a gente faz com a gente mesmo. porque tem uma mania quase universal entre adultos, ainda mais entre adultos com responsabilidade, com gente dependendo, com obrigações na mesa, de antecipar o pior. de planejar pra catástrofe. de viver, em algum nível, em estado constante de alerta. e a gente justifica isso dizendo que é cuidado, que é responsabilidade, que é prudência. e tem um pedaço disso que é verdade. ninguém está pregando aqui imprudência ou ingenuidade. eu não fui burro de não ter calculado. era importante ter calculado.

mas tem outra coisa, que mora colada nesse comportamento, e que não é nem cuidado nem responsabilidade. é medo disfarçado de prudência. é a cabeça nos arrastando pro pior cenário possível como se viver naquele cenário antecipadamente fosse uma forma de se proteger dele. e não é. nunca foi.

a gente cai antes do tiro. e na maioria das vezes o tiro nem é disparado.

eu fiquei pensando o quanto da minha energia, dos meus últimos dias, foi gasta carregando uma versão dessa segunda-feira que simplesmente não existiu. quantas horas de sono eu perdi, quantas conversas eu não consegui aproveitar inteiramente, quantos jantares eu comi com uma parte da cabeça já transitando pelo problema que talvez nem viesse. é assustador o tamanho do prejuízo invisível que esse hábito gera. ele rouba o presente em nome de um futuro que, muitas vezes, é só uma projeção.

e olha que é difícil falar disso sem soar superficial, sem soar como aquelas frases motivacionais que rodam pela internet sem contexto nenhum. eu sei que tem horas que o problema vai vir mesmo, e que se preparar é sábio. eu sei que existe um equilíbrio aqui que não é fácil de explicar. mas o que aconteceu hoje me fez pensar que talvez a gente esteja pendendo demais pra um lado dessa balança. talvez a gente esteja se cobrando uma vigilância tão constante que esqueceu que existem dias bons. que existem dias em que a coisa simplesmente flui. que existem dias em que deus, a vida, ou seja lá o nome que você dá pra isso, simplesmente cuida.

e talvez essa seja a parte mais importante da história. eu não fiz nada de extraordinário pra impedir o que parecia inevitável. não foi minha competência que resolveu. eu acreditei que ia ser ruim, me preparei pro pior, e o pior simplesmente não veio. e quando isso acontece, fica difícil não ver, mesmo que de relance, a presença de algo maior. uma forma de cuidado que não passa pelo meu controle, pelo meu planejamento, pela minha exaustão antecipada.

eu volto pra casa hoje cansado, mas de um cansaço diferente. é o cansaço de quem acordou de um pesadelo e percebeu que era só pesadelo. é alívio com um quê de constatação. de constatação dura, na verdade, porque ela me obriga a olhar pra esse padrão de antecipação que vive comigo há muito tempo, e que talvez tenha custado mais caro do que qualquer problema real que tenha aparecido na minha vida.

eu sei que vou repetir esse padrão. seria mentira dizer que descobri uma coisa hoje e nunca mais vou fazer assim. esse tipo de hábito não muda em uma segunda-feira. mas eu acho que vou levar isso comigo, pelo menos como pequeno aviso interno, pra quando a próxima segunda-feira vier carregada de previsões catastróficas. talvez eu consiga lembrar, no meio do peso, que nem sempre o tiro é disparado. que tem dias que a vida nos surpreende pra cima. que tem coisas que não dependem só do meu cálculo, da minha competência, do meu controle.

que a terça venha leve, porque deus já me deu o sinal que eu precisava.


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