dia 125/365.



a terça começou com aquilo que eu tinha rezado, na noite anterior, pra que não chegasse.

a bomba caiu no meu colo. e foi mais ou menos como se alguém tivesse puxado o pino de uma granada e me entregado nas mãos com aquela cara tranquila de quem está fazendo um favor: segura aqui pra mim. e saiu correndo. e eu fiquei ali, de pé, segurando uma coisa que eu não sabia bem o que fazer, sentindo o tempo passar de um jeito mais lento, com o coração começando a bater naquele ritmo específico que só bate quando alguma coisa séria está em curso.

e eu não vou mentir aqui. teve um momento, um momento real, em que eu pensei que dessa vez não tinha jeito. que dessa vez a conta ia chegar inteira, ia bater na minha porta, ia exigir o pagamento com juros e correção monetária da minha tranquilidade. eu já tinha entregado pra deus na sexta. eu já tinha entregado de novo no domingo, mesmo dormindo mal. eu já tinha visto, na segunda, um sinal claro de que ele estava agindo. e mesmo assim, na terça de manhã, quando o problema apareceu na minha frente, com toda aquela cara de problema de verdade, eu vacilei. completamente.

porque é fácil acreditar quando a coisa está calma. acreditar quando o céu está aberto é só uma postura. acreditar quando o céu está fechado e o vento bate na janela, isso já é outra coisa. é aí que a fé é testada. e é aí que, na maioria das vezes, ela some.

eu não vou romantizar e dizer que eu mantive a calma o tempo todo. seria mentira. eu entrei em um certo modo de pânico contido, daquele em que você ainda funciona, ainda toma decisões, ainda fala com as pessoas, mas tem uma camada por baixo de tudo gritando que isso não vai dar certo. eu fiquei nesse estado por algumas horas. e nessas horas eu provavelmente desfiz, sem perceber, todo o aprendizado dos últimos dias.

mas aí.

aí veio o que veio.

eu não vou entrar em detalhes do que aconteceu, porque não é a parte que importa. o que importa é que, em algum momento da terça, a coisa se resolveu de uma forma que não devia. de uma forma que, racionalmente, não fechava conta. de uma forma que, se você me pedisse pra explicar, eu teria que admitir que algumas peças do quebra-cabeça vieram de lugares que eu não controlei, em horários que não combinei, através de pessoas e situações que estavam fora da minha alçada. e quando você junta tudo isso, fica muito difícil olhar pra trás e dizer que foi sorte. sorte é uma palavra preguiçosa pra esse tipo de coisa.

foi outra coisa.

foi um sinal.

e eu acho que esse é o ponto que eu queria registrar com mais cuidado hoje, porque me parece importante. a vida está cheia de sinais, e a maioria deles a gente vê e finge que não viu. porque é mais cômodo. porque admitir que existe alguma coisa cuidando da gente, alguma coisa maior, alguma forma de orquestração que escapa da nossa cabeça racional, é uma admissão que mexe com tudo. mexe com a sensação de controle que a gente passou anos construindo. mexe com a ilusão de que somos os únicos arquitetos do que acontece. mexe, no fundo, com o ego, que prefere acreditar que tudo de bom é mérito nosso e tudo de ruim é injustiça.

mas se a gente parar pra olhar, com um pouco de honestidade, a quantidade de coincidências boas que aparecem na nossa vida em momentos cruciais é simplesmente desproporcional. não é estatística. não é probabilidade. não é nada disso. é alguma coisa agindo. e essa alguma coisa, dependendo de como você foi criado, do que você acredita, do caminho espiritual que você seguiu, vai ter um nome diferente. eu chamo de deus. mas o nome importa pouco. o que importa é a percepção.

e a percepção, hoje, foi gritante.

eu passei a manhã apavorado e a tarde aliviado. mas no meio disso teve um instante muito específico em que eu olhei pra cima, no sentido figurado mesmo, e disse obrigado. e foi um obrigado meio envergonhado, na verdade. envergonhado porque eu tinha duvidado de novo. envergonhado porque eu, depois de tudo que tinha vivido nos últimos dias, ainda assim entrei em pânico quando o problema chegou. envergonhado porque deus tinha me dado, na segunda, um aviso claro pra eu confiar mais, e eu tinha esquecido isso na primeira oportunidade.

mas tem uma coisa que eu acho linda nessa história toda. e essa coisa é que ele não cobra. essa parte espiritual, esse cuidado maior, ele não fica passando recibo de cada vez que a gente desconfia. ele segue cuidando. ele segue mostrando. ele segue agindo. mesmo quando a gente não merece, mesmo quando a gente acabou de duvidar, mesmo quando a gente vacilou na fé há cinco minutos. é uma paciência que beira o absurdo, pra ser sincero.

e talvez seja isso que muita gente, lendo isso agora, esteja precisando ouvir. que se você tem se sentido sozinho carregando alguma coisa muito pesada, talvez você não esteja tão sozinho quanto pensa. talvez tenha sinais já chegando, em forma de coincidências estranhas, de oportunidades inesperadas, de pessoas que aparecem na hora certa, de problemas que se resolvem por caminhos que você não previa. e talvez, como eu, você esteja escolhendo não ver. porque ver muda alguma coisa na forma como você vai precisar viver dali em diante. ver implica em acreditar. e acreditar implica em entregar. e entregar é difícil, pra todo mundo.

mas eu volto pra casa hoje convencido de mais uma coisa. e essa convicção não vai durar pra sempre, eu já sei. amanhã, na quarta, talvez eu já tenha esquecido um pouco. é assim que a cabeça humana funciona. mas pelo menos hoje, escrevendo aqui, com a memória ainda fresca do alívio, eu posso registrar isso com toda clareza:

milagres acontecem. eles acontecem com mais frequência do que a gente admite. e a parte mais cruel da nossa relação com eles não é a falta deles. é a nossa habilidade quase impressionante de fingir que eles não estão ali, mesmo quando passam pela nossa frente.

eu vi o meu hoje. eu vou tentar não esquecer.


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