
dinheiro entrou na empresa. dia bom, daqueles que dão sinal de que a maré, finalmente, está mudando. eu queria começar registrando isso porque, depois de tantos dias falando do peso, dos problemas, do aperto, é justo também registrar quando alivia. nem que seja por uma quarta-feira.
mas o que ficou comigo de verdade hoje foi o curso no centro. o tema era perdão.
e tem uma coisa interessante que aconteceu, que eu não estava esperando. o palestrante começou pelo lado que muita gente nem associa ao perdão, que é o lado fisiológico. ele falou de pesquisa séria, de estudo de verdade, mostrando o que acontece no corpo de quem guarda mágoa. o sistema simpático fica ligado, o cortisol fica alto, o cérebro responde como se estivesse sob ameaça mesmo quando a ameaça já passou há anos. e o pior: cada vez que você revisita a lembrança da ofensa, esse mecanismo todo se ativa de novo. é como se você revivesse o trauma quimicamente, sem perceber.
e ele mostrou um estudo de pessoas que praticaram o perdão como exercício. não como sentimento, como exercício. e os marcadores físicos delas melhoraram. pressão, inflamação, qualidade do sono. perdão deixou de ser conceito espiritual e virou prescrição médica. eu fiquei impressionado. anotei tudo.
depois ele puxou pro evangelho. especialmente pra aquela cena do setenta vezes sete, e pra um diálogo entre jesus, filipe e pedro. e o ponto que ficou comigo, com mais força, é que o perdão, no evangelho, nunca é tratado como gesto que você faz pelo outro. ele é tratado como gesto que você faz por si mesmo. não tem nada a ver com a pessoa que te ofendeu merecer ou não merecer. tem a ver com você não querer mais carregar.
e isso é uma reviravolta importante, porque a maioria das pessoas trava no perdão por achar que perdoar é absolver. é dizer que tá tudo bem. é fingir que não doeu. não é. perdoar é só decidir que você não quer mais que aquilo ocupe espaço dentro de você. é uma faxina interna. é uma forma de soltar a pedra que você estava carregando, achando que, segurando ela, você estava sendo justo de algum jeito.
eu fiquei pensando, depois do curso, sobre o quanto eu mesmo carrego. e cheguei numa conclusão meio inesperada. eu não sou exatamente uma pessoa de guardar mágoa. eu esqueço. eu sigo. eu não fico remoendo o que alguém me fez. claro, todo mundo tem alguns nós soltos por aí, coisas que ficaram em algum canto da memória sem você nem perceber. e está na hora de eu revisitar isso. de dar nome, de dar cor, de dar forma, e de deixar pra trás, definitivamente.
mas tem uma camada que é a mais difícil de todas. e que ninguém fala muito.
o maior perdão, o mais complicado, é o que a gente precisa dar pra si mesmo.
porque é fácil, em algum nível, soltar o que o outro te fez. você não conviveu com aquela pessoa o tempo todo. você não acorda todo dia com ela do seu lado. mas com você mesmo, você convive vinte e quatro horas por dia. e tudo que você fez, deixou de fazer, escolheu errado, escolheu certo mas mesmo assim deu errado, falhou em proteger, falhou em dizer, falhou em ouvir, tudo isso fica registrado dentro de você. e a tendência natural é se cobrar. é revisitar com julgamento. é se condenar com uma severidade que você nunca usaria pra julgar outra pessoa.
a gente é cruel com a gente mesmo de um jeito que ninguém, de fora, conseguiria ser. e a gente justifica essa crueldade chamando ela de responsabilidade. de autocrítica. de exigência. mas no fundo é só auto-tortura disfarçada de virtude.
e é esse perdão que eu acho que vale a vida inteira pra ser exercitado. não o dos outros. o seu. olhar pra trás, pras escolhas que você fez, pras versões suas que ficaram pelo caminho, pros erros que você cometeu em momentos em que você não tinha mais ferramenta nenhuma do que aquela, e dizer: tudo bem. eu fiz o que dava com o que tinha. agora segue.
isso, eu acho, é o trabalho mais importante de uma vida.
e é talvez o mais difícil. porque exige uma compaixão que a gente reserva quase sempre pros outros, e quase nunca pra si.
eu saí do curso pensando nisso. com algumas anotações químicas, algumas reflexões espirituais, e essa percepção de que o trabalho do perdão, no fundo, não é com o mundo lá fora. é com o mundo aqui dentro. e que esse trabalho não acaba. ele continua, dia após dia, em pequenas decisões silenciosas de não se cobrar tanto. de não se castigar pela memória. de soltar a pedra antes do corpo cobrar.
uma quarta-feira boa, no fim. dinheiro entrou. e uma ideia entrou também, dessas que ficam.
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