
teve dia quente.
eu sei que isso parece informação meteorológica banal, mas pra mim, no meio dessas duas semanas de frio agressivo, ter um dia quente foi quase um evento espiritual. acordei, senti o sol no rosto, olhei a previsão e descobri que ia ser o único dia decente da semana. e me agarrei naquilo como quem se agarra em galho de árvore na correnteza.
podia estar tudo caindo. podia estar tudo errado. mas tava quente. e isso, sozinho, foi suficiente pra eu acordar de bom humor pela primeira vez em muitos dias. tem uma relação direta entre o meu humor e a temperatura ambiente que ainda não foi suficientemente estudada pela ciência, mas que eu posso afirmar com a confiança de quem vive no próprio corpo há quarenta anos.
teve também uma coisa absurda. eu precisei entrar em um lugar que tinha detector de metais. desses sérios, tipo de aeroporto, não a maquininha simples de banco. e o pensamento que me veio, automaticamente, sem pedir licença, foi: e se eu tiver uma arma?
eu sei. eu sei que não tem lógica. eu sei que eu não tenho arma. eu nunca tive arma. eu nunca cheguei perto de ter arma. mas o cérebro, com aquela criatividade que ele tem pra momentos absolutamente errados, decidiu lançar a dúvida. e se. e se eu tiver. e se algum dia, sem perceber, eu coloquei uma arma na minha bolsa. e se um colega meu colocou e eu nunca abri.
passei pelo detector com a calma de quem está prestes a ser preso por um crime que não cometeu, mas que, em algum nível, considera plausível. não apitou. claro que não apitou. mas, por uns dois segundos depois, eu ainda olhei pra trás, esperando alguém me chamar. esse é o nível de paranoia gratuita que eu sustento sem motivo nenhum. e ainda pago consulta de psiquiatria.
e teve a melhor parte do dia.
o john abriu a porta do carro dele e tinha uma poça de água no tapete. uma poça. de água. de verdade. dentro do carro. ele disse, com toda a calma do mundo, que devia ter entrado água pela porta. como se isso fizesse algum sentido físico. como se carro fosse um objeto regularmente sujeito a inundação interna. ele disse aquilo sem o menor constrangimento, e eu fiquei ali, parado, tentando entender por qual buraco do universo aquela água tinha decidido se materializar.
e aí me veio a lembrança. das melhores lembranças que eu tenho, na verdade.
minha mãe ganhou, em algum momento da minha infância, um carro conversível. era a coisa mais linda do mundo, do ponto de vista dela. o problema é que esse conversível tinha um pequeno defeito de fábrica. uma borracha de vedação que não vedava absolutamente nada. e teve uma viagem inesquecível em que ela e meu pai estavam subindo a serra do litoral, no meio de uma chuva torrencial, e o carro começou a encher de água por dentro. não um pingo. não um vazamento. uma inundação completa. a água foi subindo, foi cobrindo os pedais, foi alagando o tapete, e a minha mãe, no banco do passageiro, descobriu uma vocação que ela nem sabia que tinha. ela passou a serra inteira tirando água de dentro do carro com uma canequinha. canequinha de café. juro. uma canequinha pequena, dessas que mal dá pra duas dosagens, sendo usada pra esvaziar um carro inundado.
eu não estava lá. eu era criança quando isso aconteceu. mas a história foi contada tantas vezes na minha família que virou folclore. e olhar pra poça d’água do john hoje me trouxe essa imagem inteira de volta. a minha mãe, no banco do passageiro, com cara de poucos amigos, jogando água pra fora do carro com uma caneca, enquanto o meu pai dirigia tentando não rir.
eu ri muito. ri sozinho lá, depois ri com o john explicando a história, ri de novo enquanto ele tentava entender por que aquela história específica veio agora.
a vida tem dessas. um dia comum, mas com sol. um detector de metais que despertou um surto pequeno. uma poça d’água que abriu uma gaveta inteira de memória. quase nada aconteceu, no fim. mas quase nada já é bastante.
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