
hoje eu precisei escrever um post de apresentação. desses de “quem sou eu”. simples, né?
não foi.
eu fiquei um tempo absurdo olhando pra tela em branco tentando começar. e o problema não era falta de coisa pra dizer. era excesso. excesso de possibilidades, de ângulos, de versões de mim que poderiam aparecer ali. qual eu coloco? o profissional? o escritor? o marido? o filho? o homem que trata depressão desde os 14 anos? o que faz brodo italiano às onze da noite de domingo? o que chora com cachorro e briga na caixa econômica?
e aí vem a segunda camada, que é pior. os adjetivos. quais são os meus? criativo? sim, acho que sim. comunicativo? depende do dia e da quantidade de pessoas na sala. sensível? com certeza, mas isso soa como fraqueza em certos contextos. resiliente? odeio essa palavra. todo mundo é resiliente no linkedin.
e tem a terceira camada, que é a mais traiçoeira de todas. como eu falo de mim sem soar arrogante? porque existe uma linha muito tênue entre apresentar o que você tem de melhor e parecer aquela pessoa que entra numa sala e imediatamente começa a falar de si mesma sem ninguém ter perguntado. eu não quero ser essa pessoa. mas eu também preciso me apresentar. é uma contradição que ninguém resolve direito.
eu acho que o problema com o “quem sou eu” é que ele pressupõe que a gente é uma coisa só. ou pelo menos uma lista de coisas organizadas, coerentes, que cabem num parágrafo. mas a gente não é. a gente é um conjunto de contradições, de fases, de versões que às vezes nem conversam entre si. eu sou o mesmo que foi tímido a vida inteira e que subiu num palco semana passada e fez todo mundo parar pra ouvir. eu sou o mesmo que adora silêncio e que passa horas conversando quando a companhia é certa. eu sou o mesmo que tem fé inabalável e que vacila toda semana.
como você coloca isso num post?
a resposta honesta é: você não coloca. você escolhe um recorte. você decide qual parte de você vai aparecer naquele momento, pra aquela audiência, com aquele propósito. e você aceita que essa parte é verdadeira sem ser completa. porque nenhuma apresentação é completa. nenhuma bio dá conta de uma pessoa inteira. e tudo bem.
o que me bugou não foi não saber quem eu sou. foi perceber que eu sou coisas demais pra caber em caixinha. e que qualquer caixinha que eu escolhesse ia deixar partes importantes de fora.
e talvez seja exatamente isso que esse diário está tentando fazer desde o dia um. não definir. registrar. não caber. transbordar. não ser um post de apresentação. ser uma pessoa vivendo em tempo real, com todas as contradições que isso implica.
cento e cinquenta e um dias escrevendo sobre mim mesmo, e eu ainda não sei responder “quem sou eu” em parágrafo único.
acho que é um bom sinal.
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