
teve um problema hoje. sério. do tipo que, em outro momento da minha vida, teria me derrubado. teria instalado aquela espiral de pensamento acelerado, de cenário catastrófico, de noite mal dormida planejando saída pra algo que ainda nem aconteceu de verdade.
não vou entrar em detalhe. não é o caso. mas posso dizer que era grande o suficiente pra justificar o desespero, se eu tivesse escolhido o desespero.
não escolhi.
e fico pensando no quanto isso é diferente de alguns anos atrás. porque não é que o problema seja menor. não é que eu tenha ficado indiferente, ou que não me importe. eu me importo. eu senti. mas em algum ponto da vida, silenciosamente, alguma coisa mudou na forma como eu recebo as pancadas.
eu aprendi, não sei exatamente quando, que existem coisas que estão dentro do meu controle e coisas que não estão. e essa separação, que parece óbvia quando você lê em algum lugar, é completamente diferente quando você consegue viver de verdade. porque a maioria das pessoas sabe dessa divisão na teoria. na prática, a gente continua tentando controlar tudo, gastando energia em coisas que não dependem de nós, e se esquecendo de cuidar do que realmente está nas nossas mãos.
o que eu podia fazer hoje, eu fiz. o que não estava ao meu alcance agora, eu deixei pra quando estiver. simples assim. não fácil, simples. que são coisas completamente diferentes.
porque simples não significa sem peso. significa sem drama desnecessário em cima do peso que já existe. significa não adicionar sofrimento imaginário ao sofrimento real. significa não viver hoje o desespero de um amanhã que talvez nem chegue do jeito que eu estou antecipando.
tem uma coisa que eu fui aprendendo com o tempo, e que eu acho que é uma das mais valiosas que existe: o desespero raramente resolve alguma coisa. ele consome, ele paralisa, ele distorce. quando você está em pânico, você não pensa com clareza. você reage. e reação no desespero quase nunca é a melhor resposta pra um problema que pede raciocínio.
e olha que eu não sou naturalmente calmo. longe disso. eu tenho ansiedade, eu trato depressão, eu sou o cara que acorda às três da manhã refazendo uma conversa de dois dias atrás na cabeça. a calma não é minha natureza. ela é uma escolha que eu faço, às vezes com muito esforço, de não deixar o problema crescer além do tamanho real que ele tem.
porque problema tem tamanho. e a gente, com a cabeça acelerada, tem o dom de fazer ele crescer. a gente pega uma coisa que é grande mas administrável e transforma, em questão de horas de pensamento em espiral, em algo que parece impossível. quando, na maioria das vezes, ele continua sendo grande mas administrável. só que agora você está exausto de ter lutado contra uma versão dele que não existia.
hoje eu não fiz isso.
hoje eu olhei pro problema, reconheci o tamanho real dele, fiz o que estava ao meu alcance e deixei o resto pra quando der. sem fingir que estava tudo bem. sem negar o que existia. mas também sem deixar que ele ocupasse mais espaço do que merecia.
e amanhã o problema ainda vai estar lá. provavelmente. mas eu vou estar descansado pra lidar com ele. e isso, no fim, faz toda a diferença.
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