dia 154/365.



foi um dia de véspera de feriado. e a gente resolveu adiantar o jantar de sexta pra comemorar o aniversário do john. na casa da minha mãe. com o thiago cantor.

pra quem não conhece o thiago, ele é um multi instrumentista talentoso de verdade. saxofone, teclado, violão, um aparato completo que ele monta com toda a seriedade de um profissional sério. e ele é. só que, com o tempo, ele foi descobrindo uma verdade sobre os jantares aqui de casa que nenhum contrato musical poderia ter preparado ele pra enfrentar.

a gente não deixa ele cantar.

tecnicamente ele é o cantor. tecnicamente os microfones são dele. na prática, esses microfones rodam entre os convidados com uma fluência que qualquer diretor de televisão invejaria. ele toca, a gente canta. ele tenta retomar, a gente não devolve. ele sorri porque aprendeu, depois de muitas visitas, que resistir não adianta. hoje em dia ele chega, janta, se diverte com todo mundo, e só então começa a tocar, porque antes disso é tempo perdido. chegou num equilíbrio saudável com o caos.

quando ele canta wando, aí a coisa sobe de nível. porque a minha mãe, com uma antecipação que só pode ter sido treinada, tira uma calcinha vermelha do bolso e joga nele. no cantor. que é um profissional. que já virou amigo da família justamente porque sobreviveu a esse tipo de situação mais de uma vez e ainda volta.

foi uma noite boa. daquelas que provam que alegria de verdade não precisa de muito roteiro. só de gente certa, comida, dois microfones disputados e uma mãe com calcinha vermelha de reserva no bolso pra qualquer emergência.

teve bolo. e o primeiro pedaço, por algum motivo que a turma toda achou muito engraçado, foi pra minha mãe. em vez do aniversariante. eu levei uma série de zoações que prefiro não detalhar aqui por uma questão de dignidade pessoal. afinal, o primeiro pedaço é dado pra pessoa mais importante, e aparentemente eu não estava no topo da lista naquele momento.

mas o john foi brilhante, como sempre. olhou pra mim, no meio da zuação geral, e disse que tudo bem. que eu não precisava do primeiro pedaço. porque o mais importante eu já tinha. muito mais importante do que qualquer fatia de bolo.

eu já tinha ele.

e aí ficou difícil responder qualquer coisa. então não respondi. só sorri. que às vezes é a única resposta que cabe.


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