dia 155/365.



feriado. e eu tinha uma lista.

não uma lista escrita, daquelas com caixinhas pra marcar. é a outra. a mental. aquela que fica circulando na cabeça sem pedir licença, que aparece nas entrelinhas de qualquer momento de pausa, que sussurra que você devia estar fazendo alguma coisa enquanto você tenta não fazer nada.

eu precisava organizar umas coisas. tinha coisa pra resolver, coisa pra adiantar, coisa que ficou pendente durante a semana e que o feriado parecia o momento perfeito pra atacar. e eu me vi, logo cedo, com esse plano vago mas presente de que hoje ia ser o dia de colocar tudo em ordem.

não coloquei.

passei o dia em câmera lenta. café demorado. sofá. silêncio. aquela inércia que não é exatamente preguiça mas que se parece com ela o suficiente pra gerar culpa mesmo assim. e de noite eu fiz o jantar, como faço, e foi isso.

e eu fiquei pensando nessa coisa. nessa lista que a gente carrega.

porque existe uma crueldade silenciosa no jeito que a gente se cobra. a semana inteira, você não tem tempo. as coisas ficam pendentes, as tarefas acumulam, a lista mental vai crescendo num canto da cabeça que você finge não ver porque não tem jeito de lidar agora. você empurra tudo pra um momento futuro imaginário em que vai ter tempo, vai ter energia, vai ter clareza pra resolver tudo de uma vez.

e aí o feriado chega.

e você descobre que o tempo estava esperando, mas a energia não. que a lista continuava lá, mas você não tinha mais o mesmo combustível de quando a montou. que a semana foi longa demais, pesada demais, exigente demais, e que o seu corpo e a sua cabeça simplesmente não tinham mais o que dar, mesmo com o calendário dizendo que era hora de dar.

é uma armadilha que a gente monta pra si mesmo sem perceber. a gente empilha obrigação durante dias, semanas, meses, funcionando no limite, e imagina que basta aparecer um espaço no tempo pra tudo fluir. como se a disposição fosse automática, como se fosse só uma questão de oportunidade. mas não é. disposição também precisa ser reposta. e quando a gente passa muito tempo no limite sem realmente parar, sem realmente descansar, sem realmente processar o que foi vivido, a oportunidade aparece mas a disposição não comparece.

e aí você fica olhando pra lista com a culpa de não estar fazendo nada, enquanto o seu corpo está fazendo exatamente o que precisava: recuperando o que foi gasto.

que é diferente de descansar, inclusive. descanso é quando você escolhe parar. recuperação é quando você não tem escolha. o corpo decide, e você segue, querendo ou não.

hoje eu segui.

a lista vai continuar existindo amanhã. as coisas pendentes vão continuar pendentes até que eu tenha não só o tempo mas também a energia pra elas. e tudo bem. porque forçar produtividade num corpo que está pedindo pausa não é disciplina. é teimosia. e teimosia com a própria exaustão tem um preço que a gente sempre paga mais caro do que o que economizou fingindo que estava tudo bem.

feriado não é dia de fazer. às vezes é dia de simplesmente não desfazer o que ainda está de pé.

e hoje, câmera lenta, jantar feito, lista intacta, foi o suficiente.


Comentários

Deixe um comentário