
sexta depois de feriado. que na prática é quase uma segunda, porque o cérebro ainda estava no ritmo de descanso, mas com aquela leveza de quem sabe que amanhã é sábado. o dia útil mais esquizofrênico do calendário. porque você já chega no trabalho com a sensação de “o que eu estou fazendo aqui” e contando os minutos pra ir embora.
a alê passou o dia comigo. ela veio na quarta pro aniversário do john e ficou. e ficou sendo aquela presença que você não sabia que precisava até ter. no caminho de volta pra casa, no final da tarde, a gente foi conversando. e foi nessa conversa que eu me peguei pensando numa coisa que eu acho que vale registrar.
tem amizades que te abraçam. e tem amizades que te cutucam.
as que abraçam são fundamentais. a gente precisa delas mais do que admite. precisamos de pessoas que chegam e dizem que está tudo bem, que você está indo bem, que as coisas vão se resolver. que ficam do seu lado sem cobrar explicação. esse tipo de amizade sustenta.
mas existe outro tipo. aquele que, junto com o abraço, também pergunta. que observa e comenta. que não aceita tudo como resposta. que faz você sair um pouco da bolha confortável onde você construiu uma narrativa sobre si mesmo e sobre as suas escolhas, e te obriga a olhar de fora, mesmo que por alguns minutos, mesmo que seja desconfortável.
a alê é psicóloga. e mesmo quando não está em sessão, ela observa. é da natureza dela, do jeito que ela foi treinada pra estar no mundo. e às vezes, no meio de uma conversa casual, ela pergunta alguma coisa que parece simples mas não é. que toca num ponto que você estava evitando tocar. que ilumina um canto que você tinha decidido, consciente ou não, não olhar tão de perto.
e isso incomoda. no bom sentido. naquele sentido de coçar uma parte que coça.
eu acho que a gente subestima muito o valor de quem nos desafia. a gente busca, naturalmente, quem vai concordar. quem vai validar. quem vai dizer que a gente está certo, que as nossas escolhas fazem sentido, que o nosso caminho é o melhor. e faz sentido buscar isso, porque validação é reconfortante. mas ela também pode ser uma armadilha muito confortável.
porque quando todo mundo ao redor só concorda, a gente para de questionar. para de enxergar os próprios pontos cegos. para de crescer, às vezes, porque não tem ninguém ali pra perguntar: mas você já pensou que talvez não seja bem assim?
não estou falando de crítica destrutiva. não é sobre alguém que chega pra derrubar tudo que você construiu. é sobre alguém que, com cuidado e com afeto, faz você pensar. que tem a coragem de perguntar o que ninguém pergunta porque é mais fácil não perguntar. que te trata como alguém capaz de ouvir uma verdade difícil, o que, no fundo, é uma das formas mais profundas de respeito.
a alê faz isso. e eu sou grato por isso, mesmo quando dói um pouquinho.
porque no fim, amizade de verdade não é só sobre estar junto nas partes boas. é sobre ser honesto nas partes que precisam de honestidade. é sobre querer o melhor pra outra pessoa com intensidade suficiente pra dizer o que ela talvez não queira ouvir.
e isso, eu acho, é raro. muito mais raro do que a gente percebe quando tem.
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