dia 157/365.



sábado de gente em casa. a alê ainda aqui. almoçamos no clube, passeamos pelo centro, fomos ao mercado, e acabamos na casa da minha mãe cozinhando. eu fiz entrecôte com fritas e molho mostarda. ficou bem gostoso, o que continua me surpreendendo, porque eu nunca fui de cozinhar e de repente estou me saindo razoavelmente bem. não sei quando isso aconteceu, mas aconteceu.

mas o que ficou do dia foi outra coisa.

no mercado, eu precisava de um corte específico de carne. o lugar que a gente estava indo ultimamente vende as carnes mais nobres em peças, embaladas a vácuo, numa geladeira separada, de grandes frigoríficos. não no açougue. e eu queria um corte que aquela embalagem não oferecia do jeito que eu precisava.

fiquei ali pensando em como resolver, tentando equacionar todos os cortes que eu já vi no instagram e imaginando como eu ia transformar uma peça de filé mignon em um entrecôte, sem ter a menor noção disso, quando a alê falou, com aquela simplicidade desconcertante de quem acha que a solução é óbvia: é simples. você pega a carne ali na geladeira, leva pro açougueiro e pede pra ele cortar. é o trabalho dele, tá tudo bem.

eu olhei pra ela.

mas a carne é de outra marca. está fora do açougue. porque ele faria isso, meu deus?

ela riu. deixa comigo.

e foi. pegou a carne, foi pra fila do açougue. uma fila quilométrica, diga-se. e eu ali do lado, morrendo por dentro, fazendo aquele cálculo mental acelerado de tudo que podia dar errado. o açougueiro falar que não. criar uma situação. virar uma discussão. chamar o gerente. eu sendo expulso do mercado por tentativa de corte não autorizado de carne embalada a vácuo de marca alheia.

o john, coitado, estava pronto pra qualquer coisa. e olha, se tem alguém que adora uma boa confusão, eu sou obrigado a confessar que é ele. mas naquele momento, vendo que eu devia estar tremendo igual pinscher com o olho pedindo pelo amor de deus pra ir embora em linguagem de sinais não oficial, criada por mim naquele instante, ele se conteve. a alê pronta pra lutar. e eu pronto pra correr.

porque eu tenho isso. tenho faz tempo, e eu sei que tenho. um medo instintivo de confronto. não de briga física, não de perigo real. de atrito social. de pedir algo e ouvir não. de incomodar. de criar uma situação. de ser aquela pessoa que gerou um problema num lugar público onde todo mundo está olhando.

eu faço de tudo pra evitar isso. escolho o caminho mais longo se o curto tiver chance de fricção. engulo situações que não devia engolir. fico quieto quando devia falar. e, no mercado, fico pensando em adaptar receita quando a solução era só perguntar.

a alê não tem esse problema. ela pergunta. ela pede. ela parte do princípio de que as pessoas, em geral, estão dispostas a ajudar se você simplesmente pedir. e ela quase sempre está certa.

o açougueiro cortou. torto, diga-se. cortou de qualquer jeito, sem muito cuidado, como quem fez um favor mas não estava exatamente animado com o favor. mas cortou.

e a receita ficou gostosa mesmo assim.

e eu fico pensando no quanto de vida eu perco evitando situações que, na pior das hipóteses, resultam num não. no quanto de energia eu gasto antecipando conflitos que quase nunca acontecem do jeito que eu imaginei. no quanto de fricção social eu transformo em catástrofe na minha cabeça antes mesmo de abrir a boca.

o açougueiro não me expulsou do mercado. ele só cortou torto. e o jantar ficou bom.

às vezes o pior que acontece é bem menos pior do que a gente imaginou. e a gente passa tanto tempo com medo do pior que esquece de tentar o possível.

a alê sabia disso. foi lá e tentou.

eu fiquei do lado, pronto pra correr, e aprendi alguma coisa mesmo sem ter feito nada.


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