dia 158/365.



domingo. acordei cedo, como sempre. tomei café com o john e voltei a dormir. a alê nem sinal de vida. acordamos todos perto das 15h, sem culpa, sem pressa.

mas o dia tinha começado antes disso.

às 8h30 da manhã, enquanto eu ainda estava naquele meio sono gostoso de domingo, aconteceu algo que eu vinha esperando há anos. dois ou três, talvez mais. eu tinha pedido uma psicografia das minhas cachorras que desencarnaram. a toya e a baby. toya foi minha primeira cachorra, uma beagle tricolor que morreu em casa comigo, debilitada, cheia de anos e de vida. a baby era a filha dela com um vira lata da chácara ao lado, caramelo, do jeito mais bonito possível.

domingo de manhã, finalmente, chegaram as cartas.

a da baby me emocionou de um jeito bonito e surpreendente. eu tinha quase certeza de que ela tinha retornado, reencarnado em algum dos meus cachorros atuais. mas não. a baby está no plano espiritual trabalhando com um grupo de socorro a animais de rua, auxiliando para que eles encontrem tutores. eu li aquilo e sorri. faz todo sentido. era exatamente o tipo de coisa que ela faria. calorosa, afetiva, aquela energia que chama e acolhe.

mas foi a carta da toya que me pegou de verdade.

eu não esperava o que estava escrito ali.

a carta dizia que a toya tinha vindo até mim carregando algo. que na sua vida anterior ela tinha sofrido. que havia chegado até mim com dores profundas causadas pela falta de empatia e compaixão que viveu antes. e que foi justamente por isso que ela foi direcionada pra mim. não por acaso. por uma solicitação espiritual. para que, através do meu amor e do meu cuidado, ela pudesse receber a cura que precisava.

eu li e precisei parar.

porque eu nunca soube disso. eu a amei, cuidei dela, fiz o que qualquer tutor faz quando ama um animal de verdade. mas eu não sabia que havia uma razão maior naquele encontro. não sabia que ela chegou até mim ferida. não sabia que o tempo que passamos juntos tinha esse peso, essa dimensão que vai muito além do que os olhos veem.

e a carta dizia mais. dizia que a toya está hoje numa colônia espiritual, acolhendo crianças recém-desencarnadas que chegam ali. com aquele jeitinho carinhoso dela, recebendo bem essas crianças. e que eu participo dessas visitas. que eu estive lá. que eu sempre me emociono.

eu não lembro disso conscientemente. mas alguma coisa em mim reconheceu quando leu.

e aí eu chorei. daquele choro que não avisa, que não pede licença, que vem porque alguma coisa muito funda foi tocada. não era tristeza, não era saudade só. era uma coisa maior e mais difícil de nomear. era gratidão, acho. era o reconhecimento de que o amor, quando é real, deixa marcas que a gente nem sempre consegue ver enquanto está dentro dele.

eu cuidei da toya achando que estava só cuidando dela. sem saber que estava, na verdade, curando algo que ela trazia de muito antes de mim.

e isso me faz pensar em quantas coisas a gente faz sem entender o tamanho do que está fazendo. quantos gestos simples carregam um peso que a gente nunca vai medir. quantas vezes o amor age silenciosamente, em camadas que não aparecem na superfície, resolvendo coisas que nem sabemos que estavam quebradas.

a toya veio até mim ferida. e foi embora curada.

eu não sabia. mas fiz mesmo assim.

e talvez seja exatamente isso. talvez a gente não precise saber o tamanho do que faz pra fazer bem feito. talvez seja só amar, com o que tem, do jeito que sabe, no tempo que tem.

e confiar que isso é suficiente.

porque foi.


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