dia 159/365.



a alê foi embora hoje.

e foi dia de pagamento. e eu não tinha dinheiro. e minha mãe surtou. e eu fiquei calmo, porque ia fazer o quê? não tinha. o estoicismo não é teoria quando você está dentro dele, é só a única opção que sobrou.

mas não é sobre isso que eu quero falar hoje.

é sobre o resto. sobre tudo que eu parei.

o diário que ficou atrasado. o instagram com o planner do mês inteiro pronto, organizado, pensado, e eu não postei. as coisas que eu comecei e não terminei. as que eu planejei e não comecei. esse padrão que eu conheço bem, que eu identifico quando aparece, e que mesmo assim aparece.

e eu fico me perguntando: é procrastinação? autossabotagem? ou só cansaço?

porque são três coisas diferentes. e importa saber qual é.

procrastinação é quando você adia o que não quer fazer. mas eu quero. eu quero escrever, eu quero postar, eu quero construir o que estou construindo. então não é isso. pelo menos não só isso.

cansaço eu entendo que existe. olhando pro que foi esse ano, pro que foi esse semestre, seria desonesto fingir que não estou cansado. foi muito. luto, empresa, saúde, problemas que não param, decisões que não param, responsabilidade que não para. o corpo e a mente ficam num estado constante de sobrevivência, e nesse estado as primeiras coisas que caem são justamente as que você faz por amor e não por obrigação. o diário não me cobra. o instagram não me demite. então são os primeiros a ir quando o combustível acaba.

mas tem uma terceira coisa. e essa é a mais difícil de admitir.

quando as coisas começam a melhorar, eu paro.

não é coincidência. eu já percebi esse padrão antes, em outras fases, em outras áreas da vida. quando algo começa a dar certo, quando o caminho começa a se abrir, quando eu começo a sentir que estou chegando em algum lugar, alguma coisa em mim freia. sutil, quase imperceptível, mas freia.

como se uma parte minha não acreditasse que merece chegar.

ou como se tivesse medo de que, se eu mostrar demais, construir demais, avançar demais, alguma coisa vai desabar. que a calmaria é mentira. que o próximo problema está logo ali, esperando o momento em que eu baixei a guarda. e aí, em vez de arriscar, eu paro antes. eu saio antes que me tirem.

isso tem nome. e o nome não é bonito.

é autossabotagem. não a dramática, não a que aparece em crise. a silenciosa. a que se disfarça de cansaço, de falta de tempo, de planner que ficou pra amanhã. a que não deixa rastro óbvio, mas que, quando você olha pra trás, sempre esteve ali, no momento exato em que as coisas estavam começando a funcionar.

e o mais difícil é que eu sei disso. eu identifico enquanto acontece. e mesmo assim acontece.

porque saber não é o mesmo que curar. saber é só o primeiro passo de um caminho que é longo e que exige muito mais do que consciência. exige escolha repetida. exige ir mesmo quando a parte que tem medo grita pra ficar. exige postar mesmo quando ninguém vai notar se você não postar. escrever mesmo quando o diário não cobra.

então hoje eu estou aqui. atrasado, cansado, com menos dinheiro do que eu queria ter e mais clareza do que eu esperava ter.

e escrevendo.

porque às vezes o único antídoto pra autossabotagem é fazer a coisa pequena que ela estava impedindo.

mesmo que seja tarde. mesmo que seja imperfeito. mesmo que seja só isso por hoje.


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