dia 179/365.



a enxaqueca não foi embora.

ela tinha dado uma trégua ontem de noite, o suficiente pra eu conseguir cozinhar, pra eu me sentir quase humano de novo. e eu ingenuamente achei que estava resolvido. que ela tinha ido embora. mas enxaqueca é daquelas companhias que sentem muita saudade. você pensa que se livrou e ela volta, com aquela naturalidade desconcertante de quem nunca teve a menor intenção de ir embora de verdade.

passei o dia deitado. não foi escolha, foi rendição.

e a alê estava aqui.

e o john estava aqui.

e ninguém fez nada de especial. e foi exatamente isso que eu precisava.

tem uma coisa que eu fui aprendendo com o tempo sobre amizade, e sobre amor, e sobre as pessoas que realmente ficam. tem quem precisa de você funcionando pra conseguir estar junto. precisa do seu humor, da sua energia, da sua versão animada e resolvida que aparece nos jantares e nas conversas e nas situações em que você está bem. e quando você não está bem, essas pessoas ficam desconfortáveis. não necessariamente por maldade. mas porque elas não sabem o que fazer com a sua versão parada. com o seu silêncio. com o seu corpo deitado numa cama sem ter nada pra entregar.

e tem quem não precisa de nada disso.

a alê ficou aqui o dia inteiro enquanto eu estava deitado. ela não ficou me perguntando a cada meia hora se eu estava bem, não criou clima, não fez daquilo um drama. ela simplesmente estava. circulando pela casa, fazendo as coisas dela, existindo no mesmo espaço que eu sem exigir que eu existisse de volta com a mesma intensidade.

isso é raro. muito mais raro do que parece quando você está dentro disso.

porque a maioria das pessoas, mesmo as bem intencionadas, tem dificuldade de ficar bem com o silêncio de quem ama. a gente foi ensinado que cuidar é agir, é resolver, é perguntar, é fazer. e às vezes cuidar é só não ir embora. é só continuar presente sem cobrar presença de volta.

o john, por outro lado, me conhece de um jeito que ninguém mais conhece. ele sabe exatamente quando chegar, quando dar espaço, quando trazer água, quando trazer remédio. e foi fazendo isso ao longo do dia, de tempos em tempos, com aquela precisão de quem aprendeu a ler você não pelas palavras mas pelos sinais. um copo d’água aqui, um comprimido ali, uma mão no ombro por dois segundos e depois sumia de volta pra deixar o silêncio fazer o trabalho dele.

não tem manual pra isso. não tem como ensinar. é o tipo de coisa que só vem com tempo, com atenção, com a decisão de realmente conhecer alguém além da versão que eles mostram quando estão bem.

e eu fico pensando em quantas pessoas na minha vida eu consigo ser exatamente assim. quantas pessoas eu deixo estar mal sem transformar isso numa demanda pra mim. quantas vezes eu sento no silêncio do outro sem precisar preenchê-lo. quantas vezes eu apareço com o remédio certo na hora certa sem precisar de crédito por isso.

é um exercício. e não é simples.

de noite eu me levantei. a enxaqueca tinha aliviado o suficiente pra eu conseguir me mover, e eu precisava disso. não do jantar em si, mas do ato. era domingo, e domingo tem um compromisso silencioso que eu não quebro: o jantar da minha mãe.

fiz uma massa com molho de nata e o filé mignon que tinha sobrado. cozinhei devagar, sem pressa, com aquela concentração de quem está usando a tarefa como âncora. foco, objetivo, distração. às vezes é exatamente isso que o corpo pede depois de um dia inteiro parado. não descanso, mas movimento. não silêncio, mas algo pra fazer com as mãos.

minha mãe amou o molho. e eu juro que aquilo ajudou minha dor de cabeça mais do que qualquer comprimido. tem algo no prazer de quem você ama que chega num lugar que remédio não alcança.

comi com ela, com a alê e com o john, os quatro em volta da mesa, e foi bom. não grandioso, não extraordinário. só bom. e depois de um dia como aquele, bom era exatamente o que eu precisava.

tem dias em que o maior presente não é nada grandioso.

é alguém que fica. que não vai embora quando você não está funcionando. que traz o remédio na hora certa e some de volta pro silêncio sem pedir obrigado.

eu tenho isso. e hoje, deitado com enxaqueca o dia inteiro, eu lembrei do tamanho que esse presente tem.


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