dia 182/365.



a tiamina operou hoje.

e demorou. muito mais do que o previsto. aquelas horas a mais que ninguém combinou, que aparecem sem aviso e que transformam a sala de espera num lugar onde o tempo funciona diferente. cada mensagem sem resposta é um cenário. cada minuto a mais é uma hipótese. todo mundo apreensivo, todo mundo esperando, todo mundo fingindo que estava bem enquanto não estava.

mas deu certo. graças a deus, deu tudo certo.

a equipe da veterinária nunca tinha operado um cachorro tão grande. sessenta quilos de fila brasileira são, de fato, uma novidade pra qualquer mesa cirúrgica. mas conseguiram. e ela ficou bem.

aí começou a segunda parte do dia. que foi, digamos, mais cômica.

na hora de buscar a tiamina, mandei o motorista e o jardineiro. a tiamina, convém explicar, jura de pé junto que o jardineiro é o pai dela. ele anda pela chácara o dia inteiro e ela vai atrás. é uma devoção inexplicável e inabalável. faz sentido que ele fosse buscar ela.

mandei eles no meu carro. sim, o que o john me deu. porque é maior, mais fácil pra ela entrar e sair. porta-malas, obviamente, porque sessenta quilos não é exatamente tamanho de colo.

e adivinha?

o carro quebrou.

olha, ele já tinha dado alguns sinais. mas na minha mão estava sob controle. eu tinha abastecido com álcool, todo feliz com meu carro novo, sendo que todos os meus carros anteriores foram sempre a gasolina. coloquei um pouco de gasolina depois e ele tinha parado de dar chilique. tinha, né?

pois é.

o motorista, que é um homem de soluções práticas e horizontes específicos, pediu pra levarem o cabo de bateria. porque pra ele, quando um carro para, é bateria. sempre. é o único problema que um carro pode ter na cosmologia dele. todo mundo sabia que não era bateria. eu sabia, o caseiro sabia, a rua sabia, o universo sabia. menos ele, que insistia no cabo com uma convicção admirável.

o caseiro foi lá. mostrou que não era bateria. óbvio que não era. mas a demonstração era necessária porque algumas verdades precisam de prova presencial pra serem aceitas.

o caseiro conseguiu fazer o carro ligar. não resolver, fazer ligar, que é diferente mas foi suficiente pra voltar pra casa. aproveitaram e voltaram com a tiamina dentro, porque ela não merecia sair de uma cirurgia e ficar de castigo na calçada esperando resgate.

a veterinária, compadecida com o caos, ficou a noite toda em contato. chamada de vídeo, whatsapp, acompanhando a novela em tempo real. quando eu contei que tinha ganhado o carro recentemente ela pausou, olhou pra tela e perguntou, com toda a seriedade do mundo:

me fala quem te deu pra eu saber se a pessoa te ama ou te odeia.

eu ri cinco minutos. sem parar. daquele riso que vem do fundo e não pede licença.

depois falei que era o john.

ela só disse: ok, te ama. me sinto mais tranquila agora.

e tinha toda razão.

ah, e fiquei sabendo mais tarde que a diana, minha amiga do pará, minha irmã de coração, gravou uma série pra globoplay. será que vem aí? tomara. ela merece muito, muito mesmo.

foi um dia assim. cheio, tenso, engraçado, com desfecho bom. a tiamina está bem, o carro vai precisar de uma conversa séria, e o john, confirmado pela veterinária, definitivamente me ama.


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