
a tiamina está se recuperando. melhor do que o esperado, inclusive. essa cachorra tem uma resiliência que eu admiro e que, honestamente, me envergonha um pouco.
mas eu passei o dia com o coração acelerado.
não era doença, não era pressão alta, não era nada que um médico conseguiria apontar num exame. era outra coisa. uma taquicardia estranha, aquela sensação de estar pilhado sem motivo aparente. meu corpo em 220 enquanto o dia estava em 110. querendo resolver o mundo inteiro, agitado, sem conseguir desacelerar de verdade.
e eu fiquei pensando: porque será?
aí eu lembrei de ontem.
porque ontem foi um dia de emergência disfarçada de dia normal. cirurgia que demorou horas a mais, carro quebrando na hora errada, operação de resgate improvisada, veterinária no whatsapp, todo mundo esperando, todo mundo apreensivo, e eu no meio de tudo tentando ser o ponto de calma enquanto por dentro estava tudo menos calmo.
e quando deu certo, quando a tiamina voltou pra casa bem e todo mundo respirou, eu achei que tinha terminado. que o corpo ia simplesmente perceber que estava tudo bem e voltar ao normal.
o corpo não funciona assim.
tem uma coisa que eu aprendi sobre estresse, e que faz muito sentido quando você para pra pensar. quando a gente entra em modo de alerta, o organismo libera uma quantidade enorme de adrenalina, cortisol, toda uma química de emergência que prepara você pra agir, pra resolver, pra sobreviver. é um sistema antigo, construído pra situações de perigo real. e ele é muito bom no que faz.
o problema é que ele não tem um botão de desligar imediato.
quando o perigo passa, quando a situação se resolve, quando você finalmente pode respirar, o corpo ainda está com todo aquele combustível no sistema. ainda está em prontidão. ainda está esperando a próxima ameaça, porque não recebeu o sinal claro de que pode parar. é como um motor que você manteve no limite por horas e que continua quente muito depois de você ter saído da estrada.
e aí você fica assim. pilhado sem motivo aparente. agitado num dia tranquilo. com aquela sensação estranha de que tem alguma coisa pra resolver quando não tem mais nada.
eu acho que a gente subestima muito o quanto carrega. não só emocionalmente, mas fisicamente. o estresse tem endereço no corpo. ele mora na tensão do ombro, no aperto no peito, na respiração mais curta, na taquicardia que aparece no dia seguinte quando a ameaça já foi. e a gente passa a vida achando que processar é coisa da cabeça, quando na verdade é o corpo inteiro trabalhando em câmera lenta pra dar conta do que viveu.
ontem eu fui o ponto de calma enquanto tudo estava caótico.
hoje o caos chegou atrasado, cobrar o preço.
e eu fiquei ali, acelerado num dia que não precisava de aceleração, aprendendo mais uma vez que o corpo tem o próprio ritmo. e que esse ritmo não negocia com o calendário.
a tiamina dormiu tranquila a noite toda.
eu fui dormir ainda levemente pilhado, mas um pouco mais inteiro do que estava de manhã.
às vezes é só isso. entender o que está acontecendo já ajuda a acontecer menos.
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