dia 184/365.



dia 184/365

meu carro foi de guincho hoje.

não era exatamente surpresa. ele tinha quebrado na quarta, ficado parado em casa na quinta, e hoje a sexta chegou com a decisão tomada. liguei pro seguro. veio o guincho. e eu fiquei olhando o carro ser levado, com aquela sensação meio estranha de ver algo seu partir numa plataforma sem que você dirija, sem que você controle, dependendo completamente de alguém pra chegar onde precisa chegar.

e eu fiquei pensando nisso.

tem uma humildade específica em chamar o guincho. não estou falando do carro. estou falando da vida. porque a gente passa uma quantidade enorme de tempo tentando resolver as próprias coisas sozinho. empurrando, improvisando, colocando álcool quando o carro preferia gasolina, fazendo funcionar no grito quando devia parar e pedir ajuda. e funciona, às vezes. funciona por um tempo. até não funcionar mais.

e aí vem o momento do guincho.

que é quando você admite que não vai sair dali sozinho. que o problema é maior do que a solução que você tem disponível. que existe alguém, alguma coisa, algum recurso externo que pode levar o que está quebrado até quem sabe consertar. e que pedir isso não é fraqueza. é só honestidade sobre os próprios limites.

eu acho que a gente tarda demais nesse momento. fica na beira da estrada, com o carro parado, tentando ligar de novo, tentando mais uma vez, convencido de que dessa vez vai funcionar. quando na verdade o que precisava era ter ligado pro seguro bem antes.

não teve jantar de sexta hoje. acendi a lareira porque estava frio, fiquei em casa, o dia foi quieto. às vezes a sexta pede isso. não movimento, não gente, não mesa cheia. só o fogo aceso e o silêncio de quem teve uma semana que pediu bastante.

o carro vai voltar consertado. e eu vou tentar lembrar, da próxima vez que algo travar, que existe guincho. e que usar o guincho na hora certa é muito mais inteligente do que ficar na beira da estrada achando que vai resolver sozinho.


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