carta de domingo · 26 de julho
oi.
essa semana eu passei mais tempo revisando do que escrevendo, que é a parte chata e necessária de fechar um livro. “duas da manhã” fica pronto daqui a duas semanas, e cada capítulo que eu releio me faz pensar besteira: será que tá bom o suficiente, será que alguém vai se identificar com isso. o texto de hoje é justamente sobre esse tipo de pensamento, então serviu de terapia escrever ele de novo aqui, pra você.
a régua que não é minha.
eu me meço o dia inteiro sem perceber que estou fazendo isso. será que fiz o suficiente, será que sou o suficiente, será que alguém, em algum lugar, está fazendo mais e melhor do que eu neste exato momento. é automático, quase um tique, uma voz que aparece antes mesmo de eu decidir se quero ouvi-la ou não. ela comenta o meu dia como um narrador esportivo que só registra os erros: dormiu demais, rendeu de menos, respondeu aquela mensagem com atraso, deixou o texto pela metade. e quando eu acerto, quando o dia rende, a voz não elogia, só sobe a marca. o suficiente de ontem vira o mínimo de hoje, e a linha de chegada anda sempre alguns metros à minha frente, na exata velocidade em que eu corro.
e o estranho é que essa régua nunca foi feita por mim. foi montada aos poucos, peça por peça, ao longo de décadas, por comentário de pai, expectativa de professor, comparação de vizinho, likes de gente que eu nem conheço direito e que provavelmente também está usando uma régua que não é dela. carrego uma vara de medir emprestada e ainda me culpo quando não bato a marca que ela exige, como se essa marca tivesse sido escolhida por mim, com liberdade, e não empurrada goela abaixo desde criança. se eu parar pra examinar as medidas uma por uma, quase nenhuma resiste. quem decidiu que sucesso tem essa cara, que corpo bom é esse corpo, que uma vida que vale a pena precisa caber nessa lista de conquistas nessa ordem específica? não fui eu. eu só assinei embaixo sem ler, porque todo mundo em volta estava assinando também, e criança não questiona o formulário, criança quer ser aceita.
o mais perverso é que a régua se disfarça de aliada. ela jura que está me medindo pro meu próprio bem, que sem ela eu viraria um acomodado, que é ela que me fez chegar até aqui. e talvez tenha um fundo de verdade nisso, não vou negar que a cobrança me moveu muitas vezes. mas mover não é o mesmo que guiar. ela me fez andar rápido, só nunca perguntou pra onde eu queria ir. e tem uma diferença enorme entre chegar longe e chegar em casa.
seria libertador jogar essa régua fora de uma vez, eu sei, e às vezes eu chego perto de fazer isso. mas depois eu percebo que nem sei mais qual seria a minha régua, a de verdade, sem a influência de ninguém, porque eu nunca tive a chance de construir uma do zero. isso assusta mais do que a cobrança: descobrir que, tirando as medidas dos outros, eu não sei direito o que sobra. talvez o trabalho da vida inteira seja esse: descobrir a régua que é minha, testar ela, errar com ela, ajustar ela, e ter coragem de usar só ela, mesmo quando todo mundo ao redor continua medindo pelas velhas marcas que eu decidi abandonar. por enquanto, eu me contento com um exercício menor, que é pelo menos perceber quando estou sendo medido, notar a voz do narrador no momento em que ela começa, e perguntar baixinho: perai, essa marca aí, quem foi que escolheu? não é muito. mas é a primeira vez na vida que eu seguro a régua na mão em vez de só apanhar dela.
se essa régua te soa familiar, eu quero saber: qual foi a marca que você carrega e nunca escolheu? responde esse e-mail, eu leio todas as respostas.
e sim, esse texto vai fazer parte de “duas da manhã”, meu próximo livro de desabafos, que chega em breve. mais sobre ele nas próximas cartas.
rico
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