
tem um tipo de pessoa que eu nunca consegui entender completamente.
não é a pessoa que briga quando tem motivo. essa eu entendo. todo mundo já foi essa pessoa em algum momento, inclusive eu. quando algo magoa de verdade, quando um limite é cruzado, quando uma injustiça acontece, a reação faz sentido. tem raiz, tem causa, tem proporção.
estou falando de outro tipo. o que briga sem motivo real. o que encontra atrito onde não existe nenhum. o que pega uma coisa absolutamente irrelevante, minúscula, sem nenhum peso na escala de qualquer coisa que importa, e transforma em problema. como se a situação precisasse de conflito e, na ausência dele, fosse necessário criar.
hoje eu me deparei com isso. não vou entrar em detalhe, não é o caso. mas posso dizer que o gatilho foi algo tão pequeno, tão sem importância, que eu fiquei alguns segundos genuinamente sem entender o que estava acontecendo. aquele momento de “oi?” que você tem quando a realidade não bate com o que você esperava que fosse acontecer.
e o que eu percebi, não só hoje mas em outras situações parecidas que já vivi, é que essas pessoas não estão com raiva do gatilho. o gatilho é só o pretexto. o que elas querem, no fundo, é o atrito em si. é a reação. é o movimento de energia que acontece quando alguém entra em conflito com alguém. como se o caos fosse o combustível, como se o confronto fosse o lugar onde elas se sentem mais vivas, mais presentes, mais no controle.
eu já falei sobre isso antes aqui. e volto a falar porque continua sendo uma das coisas que eu menos entendo sobre comportamento humano. porque alguém escolheria, conscientemente ou não, viver nesse nível de agitação constante? porque alguém investiria energia em criar problemas onde não existiam?
eu não sei responder com certeza. mas tenho uma hipótese.
acho que tem gente que nunca aprendeu como existir no silêncio. no equilíbrio. na ausência de drama. o conflito, pra essas pessoas, não é uma coisa ruim que acontece às vezes. é o estado natural. é onde elas se organizam. e quando a paz aparece, ela parece estranha, vazia, quase ameaçadora. então elas preenchem. com um comentário desnecessário, com uma implicância gratuita, com um problema inventado do nada.
e o pior, o que mais me incomoda nesse padrão, não é o conflito em si. é o desperdício. é a quantidade de energia, de tempo, de relação que vai embora em cima de coisas que não merecem nada disso. é o almoço que poderia ter sido gostoso. a conversa que poderia ter fluído. o momento que poderia ter sido simples e que alguém decidiu, sem necessidade nenhuma, complicar.
hoje eu escolhi não entrar. não porque não senti nada, porque senti. mas porque aprendi, a custo, que entrar no nível de quem vive de conflito é o caminho mais rápido pra virar refém do mesmo padrão. e eu não quero isso. não quero viver assim. não quero que o caos dos outros dite o ritmo do meu dia.
então eu saí. não com raiva, não com drama. só saí.
e o dia continuou. com outras coisas, com outras pessoas, com momentos que valeram muito mais do que qualquer atrito gratuito.
porque no final, o tempo que a gente gasta em conflitos desnecessários é tempo que a gente tira de tudo que importa de verdade.
e eu prefiro gastar o meu em outro lugar.
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