
dia de pagamento. quarta-feira. o curso de férias.
um dia que teve duas coisas muito diferentes entre si, que de alguma forma contam o mesmo dia.
a primeira: achamos o original de uma ata de emancipação da cidade onde eu moro. escrita à mão, assinada. e no final, entre as outras assinaturas, a do meu bisavô.
eu fiquei olhando pra aquele papel por um tempo.
eu conheci o biso. lembro pouco, como é natural quando a gente é criança e a outra pessoa já é muito velha, mas lembro. e segurar aquele papel, o original, não uma cópia, não uma referência, o papel que estava na sala quando aquilo foi decidido, com a assinatura dele ali, com a letra dele ali, foi uma sensação que eu não sei descrever direito. é como se o tempo dobrasse de um jeito estranho. alguém que eu vi, que existiu na minha vida mesmo que por pouco tempo, estava naquele documento décadas antes de eu nascer, fazendo algo que mudou o que existia antes.
história, quando aparece assim, de perto, com textura e cheiro de papel velho, é uma experiência completamente diferente de ler sobre ela num livro. ela para de ser abstrata. ela vira real, concreta, quase pessoal. e você percebe que não é só a história da cidade. é a sua também. você está aqui porque ele estava lá.
a segunda coisa do dia foi um vídeo.
contexto: estamos na copa do mundo. semifinal. argentina e inglaterra. e minha mãe tem uma relação com a argentina que eu só posso descrever como complexa. não é exatamente antipatia. é algo mais profundo, mais visceral, mais difícil de categorizar. é pessoal. com o país, com os habitantes, talvez com os dois. não pergunto muito porque algumas coisas são melhor deixadas como mistério familiar.
então eu comprei uma capinha de celular. fingi que tinha a bandeira da argentina. e apresentei a ela com todo o entusiasmo de quem está fazendo um favor, argumentando que ela deveria torcer sim, porque afinal de contas somos todos latinos, somos vizinhos, é solidariedade continental.
meu deus.
ela fez um chilique de proporções épicas. o john gravou tudo. eu postei.
foi ouro. puro, absoluto, sem liga.
e eu fico pensando no quanto esses dois momentos juntos dizem algo sobre o que é história de verdade. tem a história com h maiúsculo, a que aparece em atas, em documentos, em assinaturas em papéis amarelados. a que a gente aprende na escola, a que fica nos arquivos, a que as pessoas citam quando querem falar de algo importante.
e tem a outra. a que o john gravou no celular. a que eu postei e que fez gente que nem conhece minha mãe rir junto. a que vai ficar na galeria do celular, no feed do instagram, na memória de quem estava presente.
as duas são história. as duas vão durar do jeito que podem durar. as duas dizem algo sobre quem somos e de onde viemos.
uma com a assinatura do meu bisavô. outra com o chilique da minha mãe sobre uma capinha de celular.
família é assim. atravessa séculos e ainda consegue te surpreender numa quarta-feira qualquer de julho.
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