dia 195/365.



dia 195/365

o frio ainda estava aqui, mas já menos agressivo do que ontem. a sensação térmica havia subido alguns graus, o nariz parou de escorrer em tempo integral e eu parei de chorar. essas duas últimas coisas, diga-se, não tinham nenhuma relação entre si. uma era sinusite. a outra era frio nos olhos. completamente distinto.

falando em chorar, hoje eu mostrei a newsletter que faz parte do lançamento do meu próximo ebook. e fiz uma pessoa chorar.

quer dizer, eu não. o que estava escrito. o fato de ter sido eu que escrevi é uma incrível coincidência. mas eu acho mesmo que ela só estava sensível. essas coisas acontecem.

de noite teve aniversário. minha sogra fez jantar. pra mim, de verdade, com aquela dedicação de quem cozinhou pensando em agradar. e eu comi. deus como eu comi. eu não sei explicar o que aconteceu, mas em algum momento eu perdi completamente a noção de limite e continuei comendo mesmo depois de qualquer sinal razoável de que já era suficiente. saí de lá parecendo um baiacu. passei vergonha. valeu cada garfada.

mas o que ficou mesmo do dia foi outra coisa.

essa noite eu sonhei com meu pai.

não foi um sonho vago, daqueles que a gente acorda sem saber direito o que era. foi vívido. tinha cor, tinha detalhe, tinha aquela textura de coisa real que alguns sonhos têm e que a gente não consegue explicar. estávamos num leilão de quadros. quadros com formatos quase 3d, que saltavam da tela de um jeito que eu nunca vi acordado mas que, no sonho, parecia completamente natural. e a gente trocava estratégia. sussurrava um pro outro sobre quais ia tentar comprar, quais valia a pena brigar, quais a gente deixava passar. era ele. do jeito que ele era. presente, parceiro, cúmplice.

eu acordei de madrugada.

e acordei leve. sorrindo. com aquela sensação estranha e boa de quem acabou de estar com alguém que ama e que não está mais aqui. ele estava ali. comigo. do jeito mais real que um sonho consegue ser.

tem algo nos sonhos que eu acho que a gente ainda não entende completamente. e talvez não precise entender. eles chegam do jeito que chegam, com quem eles trazem, no momento em que decidem chegar. e às vezes eles trazem exatamente quem a gente estava precisando ver, mesmo sem saber que estava precisando.

e tem uma coisa curiosa que eu li uma vez e que sempre fica comigo. o cérebro não é capaz de inventar rostos. as pessoas que aparecem nos seus sonhos, mesmo as desconhecidas, mesmo as que estão em segundo plano num cenário qualquer, são pessoas que você já viu em algum momento da vida. nem que seja ao passar na calçada, ao cruzar uma rua, ao sentar no mesmo ônibus uma única vez. o cérebro guarda tudo. cada rosto que os olhos captaram, mesmo sem você ter prestado atenção. e na hora de montar o cenário de um sonho, ele vai buscar nesses arquivos.

eu acho isso ao mesmo tempo perturbador e maravilhoso. a ideia de que cada pessoa que você cruzou na vida, mesmo por um segundo, deixou alguma coisa em você. um arquivo pequeno, uma imagem guardada, uma presença mínima que ficou sem você saber. e que em alguma madrugada qualquer, num sonho sobre leilão de quadros 3d, elas aparecem como figurantes de uma história que é completamente sua.

meu pai não era figurante. ele estava no centro. do jeito que sempre esteve.

e eu acordei leve, com sorriso, e voltei a dormir com aquela paz de quem foi visitado por alguém que ama.

às vezes a noite entrega o que o dia não consegue.


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