
o frio chegou.
não batendo na porta. espancando.
eu sabia que ia vir, a previsão tinha avisado, eu tinha comprado lenha, eu tinha me preparado emocionalmente. e mesmo assim, quando chegou, chegou com uma intensidade que fez tudo isso parecer ingênuo. é aquele tipo de frio que você sente antes de abrir a janela. que já está lá quando você acorda, infiltrado no ar do quarto, te avisando que lá fora a situação é séria.
mas a previsão confirma que dura dois dias. eu espero sobreviver a tanto. e olha, sendo justo, esse inverno não foi tão brutal quanto os dos últimos anos. tem sido frio, sim, mas dentro de uma escala que ainda permite reconhecer a vida como vivível. isso é progresso.
aproveitei o dia pra imprimir todos os meus e-books que pretendo lançar. aquelas pilhas de papel que viram a versão física de algo que existe só na tela, e que de repente ganham peso, tamanho, presença real nas mãos. preciso fazer as últimas correções, aquela revisão final antes de soltar pro mundo.
e é aqui que eu preciso ser honesto sobre mim mesmo.
eu tenho um cronograma. eu mesmo fiz esse cronograma. ele é organizado, tem datas, tem sequência, tem lógica. e eu fico querendo furar ele. não porque o cronograma está errado. porque eu sou ansioso. porque quando alguma coisa está pronta, ou quase pronta, ou na direção de ficar pronta, uma parte de mim quer acelerar tudo e lançar agora, já, sem esperar o momento certo que eu mesmo defini.
deve ser por isso que eu passo na psiquiatra e ela me receita ansiolítico, então?
só uma teoria.
a pilha de e-books está aqui do meu lado, impressa, esperando revisão. o cronograma continua de pé. o frio continua espancando lá fora. e eu continuo aqui, ansioso e aquecido, tentando respeitar o processo que eu mesmo criei.
nem sempre é fácil ser seu próprio chefe. especialmente quando o funcionário quer furar o prazo do patrão e os dois são a mesma pessoa.
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