dia 193/365.



a previsão do tempo avisou: ia esfriar.

não um esfriar qualquer. um esfriar de verdade, daqueles que pedem preparação, estratégia, talvez um plano de contingência. pra mim, qualquer coisa abaixo de 23 graus já começa a ficar ruim. e a previsão dizia máxima de 12, talvez 13 graus, pelos próximos dois ou três dias.

eu vou morrer. sério.

comprei lenha. não porque eu precisava urgentemente, mas porque quando o inverno anuncia chegada com essa solenidade, você respeita e se prepara. eu podia escutar as trombetas do apocalipse ao longe e decidi que pelo menos ia morrer aquecido.

fui ao mercado procurar os ingredientes pro jantar.

achei? obviamente não. isso seria simples demais e a vida tem um compromisso tácito de não ser simples demais. mas fiz mesmo assim. uma espécie de bolonhesa, só que sem o molho vermelho, porque minha mãe não pode. tecnicamente isso já não é mais bolonhesa. é uma prima distante da bolonhesa, que nunca se encontraram pessoalmente mas partilham algum ancestral em comum. o boi ralado.

ficou maravilhoso. me desculpe a modéstia, mas ficou.

e então eu decidi enfrentar a fechadura eletrônica.

contexto importante: a fechadura era da porta da minha mãe. eu estava instalando pra deixar ela mais segura. missão nobre, intenção perfeita.

era um modelo simples. os controles ficam na própria maçaneta. intuitivo, diziam. fácil de configurar, prometiam. qualquer pessoa consegue, sugeria a embalagem com aquela confiança de quem nunca me conheceu.

uma hora depois eu tinha criado 13 perfis no sistema.

treze. não é força de expressão, não é arredondamento dramático. eram treze perfis cadastrados, todos meus, nenhum funcionando do jeito que devia. e o resultado final da minha intervenção de segurança foi que a porta da minha mãe agora não tranca.

deixei ela mais segura. só que ao contrário.

a fechadura olhou pra mim com aquela indiferença de quem sabe que ganhou. e tinha ganhado. completamente. eu larguei a maçaneta com uma delicadeza proporcional à minha frustração e fiquei ali pensando numa pergunta que eu não queria fazer mas que apareceu de qualquer forma.

será que a idade chegou?

aquela fase em que a tecnologia deixa de ser ferramenta e vira adversária. em que você olha pra uma instrução de três passos e consegue transformar em quinze. em que o suporte técnico de qualquer empresa do planeta já tem um protocolo especial pra quando você liga, chamado internamente de “esse de novo”.

eu não sei responder. mas tenho treze perfis numa fechadura que agora não tranca mais a porta da minha mãe.

a lenha está guardada. o jantar ficou delicioso. e a segurança da minha mãe está, digamos, em processo.

dois de três. aceitável. mais ou menos.


Descubra mais sobre enrico pierro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Deixe um comentário