
renovei minha cnh.
sim. eu sei. deixa eu explicar.
tem gente que procrastina. tem gente que adia as coisas. tem gente que protela. e tem eu, que levo um ano pra renovar uma cnh, fica andando com ela vencida, apenas com um terço, coragem e um sonho, e acha que está tudo bem. o típico exemplo do que não fazer. a pessoa que os seus pais pediam pelo amor de deus pra você não sair de casa em companhia. e não, eu não tenho bons argumentos pra isso. o tempo foi passando. e eu fui deixando.
mas em minha defesa: eu fui. eu renovei. eu venci.
claro que na minha vida, como você já deve ter percebido, tudo tem um preço. uma aventura. uma emoção quase subliminar. às vezes nem tão subliminar assim.
uma funcionária foi comigo porque o john tinha compromissos e, convenhamos, eu não podia ir sem a supervisão de um adulto responsável. chegamos e enfrentamos três filas. por quê três? não sei. foi uma fila pra pegar senha pra enfrentar outra fila pra ser direcionado a um painel. fomos mandados pro painel 3. foram bem específicos nisso, ainda que eu tenha percebido que o 2 e o 4 repetiam exatamente as mesmas informações do 3. mas eu não ousaria questionar.
a trilha sonora do ambiente era: criança aos gritos. correndo. sem supervisão aparente. e eu, que não pretendo ser pai, nunca quis e continuo não querendo, com todo o respeito do mundo a quem quer, só pensava: cadê os pais? não tem um cercado? uma coleira? um leve sedativo?
aquele barulho foi me dando uma angústia crescente. eu comecei a me questionar se eu precisava mesmo renovar a cnh. afinal, eu já estava há um ano sem. qual seria o problema de ficar mais um?
e meu número não era chamado. minha senha começava com e. o painel só chamava b e c. eu achei que era carma. ou algo pessoal.
a coisa foi ficando tão insustentável que quando passou uma funcionária, eu me levantei e soltei um berro que fez eco pelo corredor. a coitada levou um susto que deu pra sentir a alma saindo do corpo e voltando. devia ter pensado que era um ataque terrorista. não era. era, no máximo, uma mini crise de pânico de alguém convicto de que tinha pego a senha errada e estava esperando na fila errada há quarenta minutos.
ela só sorriu e explicou: e era de quem precisava fazer exame médico. e se estava demorando tanto era porque, entre as centenas de pessoas presentes naquele ambiente, eu era provavelmente o único que precisava fazer o exame naquele dia.
o único. entre centenas.
e como mágica, assim que eu fui falar com ela, chamaram minha senha. eu acho que estavam esperando pra confirmar se a senha correspondia a alguém físico ou se era alguma entidade espiritual pregando uma peça no poupatempo.
o cadastro foi tranquilo. até chegarmos ao final.
a atendente olhou pra mim com aquela expressão de quem está prestes a dar uma notícia ruim. segurou minha mão, respirou fundo e disse: eu tenho uma notícia péssima pra te dar.
pronto. era tudo o que eu precisava.
meu primeiro pensamento foi que eu ia ser preso. igual quando eu passei pelo detector de metais e achei que talvez eu tivesse uma arma sem saber. depois, nos dois segundos seguintes, fiz uma revisão completa de todos os erros dos últimos cinco anos da minha vida.
ela olhou fundo nos meus olhos e disse: não pode mais sorrir na foto.
o chão abriu. eu vi a luz. quase segui.
eu falei pra ela: olha, se você quer me ferrar assim, pelo menos me leva pra jantar antes. eu estava pronto pra apertar o botão de avaliação como péssimo e horroroso. mas tudo bem. não se mata o mensageiro.
fui esperar no guichê de impressões digitais e fotografia. igual quando você é preso. você já foi preso?
sentei com o que restava da minha dignidade, olhei pra moça da foto e falei: nem adianta tentar. a anterior já acabou com toda a minha esperança. eu estou tipo aquela frase: abandonai toda a esperança, vós que entrais. ela já me contou que não posso sorrir.
e aí eu contei pra ela a minha teoria. quando a polícia me para, eu fico nervoso. quando fico nervoso, sorrio. ou dou risada de nervoso. então fazia todo o sentido eu estar sorrindo na carteira de motorista. além de parecer mais simpático, claro.
ela considerou e disse: mas você pode sorrir, desde que não mostre os dentes.
era uma boa ideia? obviamente não. eu sabia o que ia acontecer. mas sorri do mesmo jeito. e o óbvio aconteceu. saí com a cara de quem acabou de aprontar alguma coisa. um crime, sei lá. eu fico transitando entre o coringa do batman e um psicopata bonzinho. se a polícia me parar e ver minha cnh, eu vou preso antes de qualquer pergunta.
a consulta médica foi outra humilhação à parte, especialmente pra um daltônico. mas eu sorri, fingi simpatia, os dois médicos fingiram junto e eu saí aprovado.
no dia seguinte a cnh já estava atualizada no aplicativo. com a minha nova cara.
ah, e a cereja do bolo? é válida por dez anos.
dez anos com a cara do coringa na carteira. a polícia vai adorar.
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