
dia relativamente normal. exceto pela parte em que eu não consegui pagar tudo. mas isso já virou categoria própria de dia, então seguimos.
teve jantar à noite. eu fui. com boa vontade, com disposição aparente, com aquela energia de quem está pronto pra uma noite social agradável.
saí mais cedo do que o planejado.
e aqui eu preciso ser honesto sobre uma coisa que eu já sei há muito tempo mas que insisto em fingir que vai ser diferente dessa vez. minha bateria social é pior que a de iphone.
não o iphone novo, que já não é lá grande coisa. estou falando do iphone de três gerações atrás, aquele que você carregava o dia inteiro pra ter certeza que não ia morrer antes do meio dia, mas que morria de qualquer forma. esse. é mais ou menos essa a minha capacidade de interação social sustentada.
eu chego num lugar, eu sorrio, eu converso, eu estou presente. genuinamente presente, inclusive, não é fingimento. mas tem um momento, e esse momento chega sem avisar, em que algo dentro de mim simplesmente começa a piscar vermelho. sabe aquele ícone de bateria fraca que aparece no canto da tela? é exatamente isso. só que no meu caso não tem modo de economia de energia. é vermelho e depois é zero. sem transição gentil.
e no zero eu não sou exatamente a pessoa mais agradável do planeta. vamos dizer que já tivemos baixas.
e aí eu preciso ir embora.
não porque não gosto das pessoas. não porque o jantar estava ruim. não porque alguma coisa aconteceu. simplesmente porque acabou. a carga acabou e não tem tomada disponível no ambiente social que resolva isso.
e eu saio de fininho. sempre. é uma técnica aperfeiçoada ao longo de anos. quase uma operação militar de extração silenciosa. missão sigilosa, sem codinome porque eu nunca cheguei a esse nível de organização, mas com toda a estratégia envolvida. você agradece num momento calculado, se despede de quem está mais perto, e vai saindo devagar, rente à parede, sem fazer barulho, sem chamar atenção.
porque a alternativa é pior. muito pior.
a alternativa é alguém perceber que você está indo embora e soltar aquele “mas já vai? fica mais um pouco.”
gente. isso pra mim é a morte. sério. eu acho que essa frase específica consta em algum manual de técnicas de pressão psicológica brasileira. porque não é só uma frase. é o início de uma negociação que eu não tenho energia pra fazer. é o olhar de quem ficou magoado. é o argumento de que ainda tem sobremesa. é a sensação de que eu preciso justificar uma necessidade que eu nem sei como explicar sem soar estranho. ou absolutamente grosseiro.
tenho uma amiga que eu desisti de ir na casa dela porque sempre que eu quero ir embora é um escândalo tão grande que eu me sinto em cárcere privado. já tentei ligar pra polícia uma vez e esconderam meu telefone por 3 horas. eu chorei.
por isso o fininho. sempre o fininho.
os amigos já sabem. quem frequenta os jantares de sexta na casa da minha mãe, os almoços de domingo, os aniversários, já entendeu que em algum momento eu vou sumir. não foi uma conversa, não foi um aviso formal. foi observação empírica ao longo do tempo. ele chega, ele está presente, ele some. sempre foi assim. provavelmente sempre vai ser.
e a única pessoa que não precisa de observação empírica porque simplesmente me lê é o john. não é igual a mim, mas é compreensivo o suficiente pra perceber na hora exata. ele olha pra mim, lê alguma coisa no meu rosto que eu nem sei que estou mostrando, e fala com aquela naturalidade de quem está comentando o tempo: ok, sua bateria acabou né? vamos embora. porque ele sabe que é muito mais seguro eu ir embora do que começar a rosnar pras pessoas do nada.
e a gente vai. sem drama, sem explicação, sem negociação.
a única coisa que recarrega é chegar em casa, ficar em silêncio, existir sem precisar de nada por um tempo. a tomada de casa não tem fila de espera, carrega rápido e, melhor de tudo, não julga.
tem pessoas com bateria maior, tem pessoas com bateria menor. nenhuma das duas está errada. só são diferentes.
eu só aprendi, com o tempo, a respeitar a minha. e a sair de fininho antes que ela chegue no zero.
é mais gentil pra todo mundo. inclusive pra mim.
e pras baixas em potencial.
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